Presidenciais

Vitorino Silva: calceteiro por paixão, político por missão

PEDRO SARMENTO COSTA

Aos 49 anos, Vitorino Silva candidata-se pela segunda vez às eleições presidenciais. É calceteiro, político, já participou em reality shows e até fez um disco. Acredita que quem faz sempre a mesma coisa morre analfabeto.

Chama-se Vitorino Francisco da Rocha Silva, mas é mais conhecido como Tino de Rans, a freguesia do concelho de Penafiel que acredita ter colocado no mapa.

Trabalha na Câmara Municipal do Porto como calceteiro. “Sou calceteiro por amor, costumo dizer que sou um tatuador de chãos. Sou um privilegiado, tenho a arte mais bonita que existe, um dia vai ser Património Mundial”, disse numa entrevista ao Diário de Notícias.

Entrou para a política aos 21 anos, quando se tornou presidente da Junta de Freguesia de Rans - na altura, o presidente mais novo do país. Esteve no cargo durante oito anos e diz que foi a experiência mais bonita que teve. Sem se querer gabar dos feitos atingidos durante o mandato, Tino aproveita sempre para lembrar uma história que marcou o legado que deixou na freguesia.

“Um dia era preciso abrir uma escola para as pessoas que não sabiam ler nem escrever e a minha mãe, que tinha 61 anos, até foi para a escola. E o JN, no dia em que fez cem anos, com a maior tiragem de sempre, 500 mil exemplares, foi fazer uma entrevista à escola de Rans e por acaso entrevistou a minha mãe, a dona Gertrudes. E quando a entrevistou, a jornalista Isabel Peixoto, perguntou-lhe qual tinha sido a coisa mais importante que ela tinha tirado da escola. E ela: ‘Agora a qualquer terra que chegue já sei onde estou. Há muita gente que não sabe onde está.”, contou ao DN.

Foi Gertrudes que criou Tino, e mais oito irmãos, depois de o pai ter falecido. Em 2019, lançou o livro “A… CORDA P’RÁ VIDA” em homenagem ao pai.

Depois de conquistar Rans, quis chegar à Câmara Municipal de Valongo - município onde residia - como candidato independente, em 2009. Perdeu as eleições e não conseguiu alcançar um mandato como vereador.

O mesmo aconteceu em 2017, quando se candidatou à Câmara de Penafiel com o apoio do movimento “Penafiel é TOP”.

LUSA

Em 2016, candidatou-se pela primeira vez à Presidência da República e conseguiu arrecadar 152 mil votos (3,28%) - apenas 30 mil votos de diferença para o então candidato do Partido Comunista, Edgar Silva.

Foi militante do PS durante vários anos, mas deixou de se rever em algumas posições do partido. Em 2019, criou o seu próprio partido, o RIR (Reagir, Incluir, Reciclar) - um “partido central”.

“Eu fui soldado e havia uma coisa que gostava muito, marchar quando estávamos na parada. E era "up dois, esquerda, direita / up dois, esquerda, direita". O RIR vai ter sempre um pé direito e um pé esquerdo para poder caminhar seguro”, diz.

Esteve na corrida às eleições legislativas, em outubro de 2019, e conseguiu votos em 275 dos 308 concelhos do país.

ESTELA SILVA

Questionado sobre a atividade política do partido, Vitorino esclareceu que está vivo, mas “em lume brando”. Confessa que realizaram dois congressos, um deles num coreto, em que existiam mais árvores do que pessoas.

O dia em que Tino subiu ao palco para “falar para 10 milhões”

Foi no XI Congresso do Partido Socialista, em 1999, que Vitorino Silva saltou para a ribalta. O então militante do PS e presidente da Junta de Rans chamou a atenção de todos os que estavam no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

“Levantei um grande estádio que é o Coliseu. Normalmente as pessoas quando vão para os congressos dos partidos vão para falar para o chefe. Eu percebi que havia mais gente fora daquele Coliseu, percebi que havia dez milhões de pessoas à espera daquele discurso. Se eu fosse como os outros militantes, falar para o Guterres, falar para dentro, aquele discurso não passava. O certo é que passaram tantos anos e as pessoas ainda se lembram daquele discurso. E porquê? Porque foi genuíno, foi verdadeiro e é isso que muitas vezes nos congressos não acontece. É tudo feito a régua e a esquadro”, lembra o candidato.

No final do discurso, foi abraçado pelo líder socialista que ainda hoje admira, António Guterres.

À boleia deste episódio Tino foi ganhando protagonismo. Lançou o disco “Tinomania”, em 2001, e em 2005 participou no reality show da TVI, “Quinta das Celebridades”. Em 2013, voltou à televisão para o Big Brother VIP.

“Política é uma missão”

“Não tenho problema nenhum em dizer que estive num programa que tinha dois milhões de audiência. E o atual Presidente da República aproveitou-se muito daquele povo que estava à espera do Big Brother para poder falar e mostrar livros”, afirmou Vitorino ao projeto “Os 230”.

Diz que não quer fama. Lembra que fez uma calçada portuguesa no reality show, para defender a sua arte - “uma arte bem portuguesa”, afirma.

“Se quisesse aparecer também saberia como aparecer. Também me escondo. As pessoas criticam-me por estar três meses num programa de televisão. O Marcelo está há cinco anos num Big Brother”, continuou o candidato, que não tem poupado críticas a Marcelo Rebelo de Sousa.

Candidata-se agora, pela segunda vez, a Belém porque considera que a "democracia está em risco” e “é necessário defendê-la” e porque se sente cada vez mais preparado para exercer o cargo, segundo diz.

“Aquela gente acreditou em mim para Presidente da República há cinco anos. Andei pelo terreno e já são muitos mais. A minha candidatura tinha que acontecer porque eu não abandono os meus eleitores”, disse ao Diário de Notícias.

Questões polémicas: em que lado se posiciona?

A lei da eutanásia está prestes a chegar a Belém e, quem se seguir na Presidência, irá ter de promulgá-la ou vetá-la. Tino aprovava o decreto, assim como legalizaria as drogas leves e a prostituição.

“Sou um cidadão do mundo e deste tempo. Este é o tempo certo para uma pessoa evoluir e para Portugal evoluir. Não tenho problemas nenhuns, é uma opção de cada um. Mesmo às vezes não concordando, respeito as opiniões dos outros”, revelou ao projeto “Os 230”.

Ao contrário das candidatas de esquerda Ana Gomes e Marisa Matias, Vitorino daria posse a um Governo do Chega, apesar de não se rever no partido, lembrando que o seu próprio projeto tem como um dos principais objetivo “Incluir” - “Ora ele defende em muita coisa o Afastar”.

“Tenho muito respeito pela aprovação do Tribunal Constitucional. O Tribunal Constitucional se aprovou o partido Chega eu tenho de respeitar essa decisão.”

A campanha

A 23 de dezembro, entregou no Tribunal Constituição nove mil assinaturas, depois de um processo de recolha “muito duro” por causa da pandemia.

É um homem só mas não está sozinho, refere o candidato. A filha Catarina ajuda-o com a internet e a preparar o terreno para ir à junta de freguesia buscar as certidões.

"Eu quis fazer o trabalho de formiga, fui eu que as arranjei, as assinaturas, noventa e tal por cento fui eu que as arranjei, porque só fazia sentido assim”, esclareceu.

Tem 16 mil euros disponíveis para campanha, mas quer gastar o mínimo possível. Ainda pensou em colocar um ou dois cartazes, mas depois decidiu ele próprio ser o cartaz e correr Portugal no seu próprio carro.

“O meu orçamento é de 16 mil euros, mas só dez mil em dinheiro. Tudo o resto é em géneros porque vou usar o meu carrito, vou dormir em casa de amigos, nalgumas zonas do país, mas vai ser tudo apontado e contadinho, quilómetro a quilómetro, refeição a refeição”.

Continuou:

“Um exemplo de campanha: no primeiro dia irei dar sangue. Não gasto um tostão e tenho a certeza que é importante, hoje em dia é importante, os hospitais precisam de sangue. Os políticos também de dar alguma coisa. Eu vou dar sangue porque sangue é vida”, disse em dezembro. Entretanto, já cumpriu a promessa.

ESTELA SILVA

Os planos de Vitorino Silva foram, entretanto, adaptados devido ao estado de emergência e ao recolher domiciliário obrigatório. Apesar da atividade política o permitir, não quer andar na rua.

"Eu sou do povo. Recebi uma mensagem da Proteção Civil a dizer para estar em casa, e eu não quero mordomias dos políticos", explicou.

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