Presidenciais

Marisa Matias: a feminista e defensora dos Direitos Humanos que quer pôr fim às desigualdades

JOSÉ SENA GOULÃO

Em 2016, fez história. Conseguiu o melhor resultado de sempre de uma mulher em eleições presidenciais com 10,2% dos votos. Não foi suficiente para ser Presidente da República e, por isso, está novamente na corrida a Belém.

Marisa Isabel dos Santos Matias nasceu em Coimbra, em 1976, mas foram as ruas da aldeia de Alcouce, em Condeixa-a-Nova, que marcaram a sua infância. Andava todos os dias cinco quilómetros para ir para a escola e ajudava a família no pastoreio e na agricultura.

A mãe, que lhe incutiu “uma exigência muito grande quanto ao tratamento igual”, era empregada de limpeza e o pai guarda-florestal. O gosto pela política foi-lhe passado por Álvaro Febra, o comunista da aldeia, nas conversas de horas que trocavam nas escadas junto à casa dos avós de Marisa.

“Ele ensinou-me muitas coisas sobre a política, sobre a ditadura, sobre a resistência antifascista”, quando era ainda “uma miúda pequena”, contou a candidata ao projeto “Os 230” da Comunidade Cultura e Arte.

Aos 16 anos começou a trabalhar para pagar os estudos e contribuir para o orçamento familiar. E foi sempre assim ao longo do seu percurso académico: serviu às mesas de bares e cafés e fez limpezas.

Marisa foi a primeira da família a concluir uma licenciatura, aos 22 anos. Todo o percurso académico foi feito na área de Sociologia, na Universidade de Coimbra, desde a licenciatura ao doutoramento.

As Ciências Sociais, nomeadamente a Sociologia, ensinaram-lhe a incluir complexidade nas questões e a identificar problemas de uma maneira mais atenta.

“Muitas vezes cometemos erros de avaliação e de decisão política por estarmos a tentar impor medidas em sociedades para as quais essas medidas nunca vão dar resposta aos problemas e, por isso, é importante conhecer essas sociedades”, esclareceu na entrevista ao projeto “Os 230”.

Em 1997 começou a trabalhar como secretária da Revista Crítica de Ciências Sociais, integrada no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES), onde viria a tornar-se investigadora em 2004. Também deu aulas no ensino profissional e em cursos de pós-graduação.

Do Bloco de Esquerda até Bruxelas

Em 2004, aderiu ao Bloco de Esquerda, que considera o “projeto político-partidário mais completo" que temos em Portugal. Viu no partido de esquerda uma resposta política em linha com aquilo que defendia.

Bastaram-lhe cinco anos no partido para chegar a Bruxelas como eurodeputada, cargo que desempenha até hoje.

Jorge Cabrera

Em 2009, logo no início do seu primeiro mandato, foi nomeada relatora do Parlamento Europeu para a diretiva que previne a entrada de medicamentos falsificados na cadeia de distribuição Europeia. Depois de negociações levadas a cabo durante dois anos, a diretiva foi aprovada e transposta para os Estados-membros.

Um ano depois tornou-se vice-presidente do Partido da Esquerda Europeia, cargo que ocupou até 2019, ano em que foi eleita vice-presidente do Grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde.

Mas este viria a ser apenas o início do trabalho que tem desenvolvido em Bruxelas, não só na área da saúde, como também nas áreas da investigação, inovação, economia e alterações climáticas.

Ganhou destaque com a estratégia europeia de combate ao Alzheimer, com a co-autoria da primeira resolução aprovada no Parlamento Europeu com vista a definir linhas políticas de combate à diabetes e ainda com resoluções relativas ao cancro e ao HIV.

O trabalho acabou por lhe valer o prémio de Deputada do Ano na área da saúde - o primeiro a ser atribuído a uma deputada do Grupo Parlamentar da Esquerda Unitária.

Neste momento é Presidente da Delegação para as Relações com os Países do Maxereque - Líbano, Egipto, Síria e Jordânia - debruçando na questão dos refugiados.

As bandeiras: luta pelos Direitos Humanos e contra as desigualdades

Marisa é feminista “na teoria e na prática”, ativista dos Direitos Humanos e marca presença em movimentos cívicos ligados à cultura, ambiente e direitos sexuais.

Em 2016, durante a primeira campanha presidencial que participou como candidata do Bloco de Esquerda, passou também a ser uma voz ativa na luta pelos direitos dos cuidadores informais, tanto em Portugal como na Europa. Tem denunciado a falta de direitos e de condições dos cuidadores e tem ajudado a organizar encontrados nacionais.

Até Marcelo Rebelo de Sousa, seu rival na corrida a Belém, elogiou o trabalho de Marisa Matias neste âmbito.

“Foi incansável, batalhámos em conjunto e eu admiro muito a Marisa Matias, porque ela é assim quanto aos cuidadores informais, mas é assim na vida. Tenho uma grande admiração por ela como cidadã, como eurodeputada, como defensora dos diretos, e como uma pessoa solidária. Sou suspeito”, afirmou o Presidente da República no Dia do Cuidador Informal.

A candidata às Eleições Presidenciais, Marisa Matias (E), conversa com Rosália Ferreira, cuidadora informal da sua filha Liliana, durante uma ação de campanha em Almada, 11 de janeiro de 2021

A candidata às Eleições Presidenciais, Marisa Matias (E), conversa com Rosália Ferreira, cuidadora informal da sua filha Liliana, durante uma ação de campanha em Almada, 11 de janeiro de 2021

MIGUEL A. LOPES

O combate à pobreza e às desigualdades também marca a agenda política da bloquista. Num debate das eleições presidenciais chegou mesmo a admitir que não vê as desigualdades como um desvio das políticas do país, mas sim como o centro das políticas que têm sido implementadas. “São a regra, não são a exceção”, afirmou.

Neste âmbito a sua proposta é clara: defende os serviços públicos e uma estratégia contra a precariedade, ao mesmo tempo que pretende atingir a igualdade em todos os sentidos, quer em questões de género ou em questões relacionadas com minorias.

Salvar o Serviço Nacional de Saúde

Quando fala do Serviço Nacional de Saúde, a candidata do Bloco de Esquerda cita sempre dois nomes: António Arnaut e João Semedo, que em 2017 elaboraram uma proposta de Lei de Bases da Saúde, onde é blindada a iniciativa privada.

É nesse Serviço Nacional de Saúde que Marisa acredita e que quer ver implementado. Logo no primeiro comício digital realizado no âmbito das eleições presidenciais, Marisa Matias defendeu que é preciso salvar o SNS.

“É por isso que no centro da proposta política que apresento desta candidatura, no centro daquilo que me motiva desta candidatura, no centro do combate que travo todos os dias - e continuarei a travar depois desta candidatura, depois desta eleição, com a força que tiver, com a força que ela me der - está um contrato para a saúde”, assegurou.

Face à pandemia de covid-19, a candidata do Bloco reforça ainda a ideia de que os privados da Saúde não dão resposta ao país quando são necessários.

“Estamos há quase 50 anos em democracia e nunca tivemos uma mulher presidente”

Apesar do resultado histórico conseguido nas presidenciais de 2016, Marisa Matias não foi dada como candidata garantida na campanha de 2020. A chegada à frente de Ana Gomes podia fazer antever uma coligação de esquerdas que conseguisse agregar mais votos.

Porém, o Bloco de Esquerda optou por lançar um candidato e a escolhida foi, mais uma vez, Marisa Matias. A 9 de setembro de 2020, no Largo do Carmo, a bloquista anunciou a sua candidaditura na presença de dezenas de profissionais de saúde que combatem a pandemia de covid-19.

Marisa Matias na campanha das eleições presidenciais de 2016

Marisa Matias na campanha das eleições presidenciais de 2016

Paulo Cunha

Divergências com outros candidatos

A divergência mais profunda e notória é com o candidato do Chega, André Ventura, com o qual admite não ter nenhum ponto em comum. Tal como reafirmou nos debates presidenciais, Marisa Matias garante que não daria posse a um governo do Chega caso fosse Presidente da República.

Apesar de Marcelo elogiar Marisa Matias, a candidata do BE afirma que os dois têm “posições radicalmente opostas” em matérias como o Serviço Nacional de Saúde e o Novo Banco.

Nas candidaturas de João Ferreira e Ana Gomes já é possível encontrar alguns pontos convergentes, embora não concorde com a visão da política internacional do candidato do PCP ou com a política de Defesa da socialista.

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