Eleições nos EUA

Não sei que país vou ter quando acordar na quarta-feira

As duas campanhas, particularmente a republicana, mas os democratas também são responsáveis, lançaram campanhas de desinformação que se esperam de países africanos ou centro americanos em que existem ditadores, mas que não se esperam de quem quer liderar o país que se considera a maior potência mundial. A opinião é de Nuno Tiago Antunes, um português que vive nos EUA desde 2009.

Este tem sido um ciclo eleitoral com muitas emoções à mistura; incredulidade, receio, confusão, para nomear alguns.

O que começou com um vasto grupo de candidatos com diferentes visões e, na minha opinião, capazes de encontrar o meio termo que parece ter desaparecido da realidade Americana, acabou com dois homens brancos com mais de 70 anos, desligados da realidade.

Quando os resultados forem anunciados, a expetativa não é de que o país fique melhor, mas sim que fique menos mal. Mas sinceramente, tenho a sensação, e receio, de que vamos ter mais quatro anos de administração republicana e um recuo de várias décadas em tudo aquilo que foi atingido em termos de direitos humanos, ambiente, ou outras áreas.

Custa-me muito ver o “meu” país estar nesta situação, custa-me ver amigos americanos a pensar em deixar o país se os republicanos ganharem outra vez.

A uma semana do dia oficial da eleição, e digo oficial porque mais de 70 milhões de americanos, incluindo eu, já votaram, são vários os sentimentos predominantes. Continuo incrédulo com aquilo que se está a passar.

Quando vim para os EUA em 2009, era o primeiro ano da administração Obama, e o sentimento geral era muito diferente, calmo, moderado. Comecei em Indiana, numa cidade democrata num estado republicano. A minha orientação política, moderada para padrões europeus, era vista como muito à esquerda para padrões americanos.

Lembro-me bem de discutir política com amigos europeus, e olharmos à volta para ter a certeza de que não “incomodávamos” ninguém. Hoje, o país está profundamente dividido, está em dois extremos, e de repente estou no “meio”.

Já não existe moderação, os dois partidos políticos e respetivos simpatizantes são como noite e dia. As duas campanhas, particularmente a republicana, mas os democratas também são responsáveis, lançaram campanhas de desinformação que se esperam de países africanos ou centro americanos em que existem ditadores, mas que não se esperam de quem quer liderar o país que se considera a maior potência mundial.

Os simpatizantes compram os seus discursos, sem sentido crítico, sem pensar. Os meios de comunicação tomaram partidos e em vez de darem notícias imparcialmente, tentam eleger o presidente favorito e criam teorias em vez de se limitarem a factos.

Este é um país que nunca recuperou da guerra civil, um país em que as zonas rurais e urbanas mais podiam ser dois países, tão diferentes que são. Este clima, em vez de unir, cria ódio e separação.

Felizmente hoje estou num estado em que à partida não vai haver problemas – Massachusetts. Somos um estado democrata, com um governador republicano que a maioria adora. Apesar de problemas, como em qualquer lado, as coisas funcionam, há bom senso e respeito.

Mas tenho receio do que vejo noutros estados, em que tanto a administração federal como a local estão a dificultar ao máximo a votação; locais de voto fechados, caixas para depositar os votos antecipados disponíveis em grande quantidade em zonas republicanas, mas limitadas ao minímo em zonas que votariam democrata, da administração desmantelar e dificultar o trabalho dos correios (quando a maioria dos que votam por correio são democratas), ou o Supremo Tribunal proibir que votos depositados antes do dia das eleições mas que chegam depois do dia das eleições serem contados.

Custa-me compreender que isto aconteça naquilo que consideramos um país civilizado; aquilo que vemos é um partido político corromper a democracia em seu favor, e ninguém faz nada.

Não sei que país vou ter quando acordar na quarta-feira. Idealmente, o vencedor é encontrado e o vencido, o seu partido e os simpatizantes acatam a decisão. Duvido que tenhamos essa sorte – ganhe quem ganhe, estou certo que a outra parte vai contestar, e criar confusão e mais divisão.