Eleições nos EUA

Donald no País das Maravilhas

Jonathan Ernst

A pergunta que se impõe é se Donald acredita no país das maravilhas que descreve e se se tem em tão boa conta como diz. Talvez faça tudo parte de uma estratégia. Ou talvez não. Talvez não haja sequer estratégia.

No país de Donald a vacina está quase, quase a chegar e o vírus já foi vencido. A economia importa mais do que tudo e todas as semanas há milhões de novos e bem pagos empregos.

No país de Donald não existe racismo e entre os supremacistas brancos há boas pessoas. As mulheres dos subúrbios são donas de casa agradecidas por não terem vizinhos de minorias étnicas e o muro da fronteira está a ser pago pelo México.

No país de Donald, todos adoram o presidente excepto a esquerda radical. E o jornalismo, o verdadeiro inimigo do povo.

Mas este país existe apenas nas frases repetidas nos comícios e atiradas de rajada para o twitter. E talvez na visão dos apoiantes mais incondicionais. Os Estados Unidos são muito mais do que o país imaginário de Donald. E Trump é muito menos do que o grande lider que quer parecer.

Segundo os "fact checkers" norte-americanos, o Presidente mente dezenas de vezes a cada discurso, a cada entrevista. E de tudo é capaz para tentar encaixar a realidade sombria na narrativa que mais o engrandece.

Trump adora adjetivos e tem o fraco das grandezas. Grande é das suas palavras preferidas. Ou não apregoasse que com ele e só com ele, a América será grandiosa outra vez. Outra vez.

E a pergunta que se impõe é se Donald acredita no país das maravilhas que descreve e se se tem em tão boa conta como diz. Quem o conhece intimamente, como a sobrinha, garante que não. Que é apenas um fraco a tentar parecer forte, um ser humano traumatizado, capaz de tudo para parecer maior e melhor do que os outros.

Talvez faça tudo parte de uma estratégia. Ou talvez não. Talvez não haja sequer estratégia.

Porque, dizem muitos analistas políticos, mesmo alguns republicanos, os comícios atulhados de apoiantes sem proteção não servem para angariar novos eleitores. Pelo contrário, só prejudicam a imagem do presidente.

Mas Donald não os ouve. Poucos, aliás, são os que se conseguem fazer ouvir pelo Presidente que só faz o que quer. Por isso tem cavalgado pelo país de comício em comício, disparado contra todos os que o contrariam, atropelado tudo o que o enfraquece, alimentado teorias da conspiração.

As palavras e os atos de Donald são patéticos, dizem muitos. Mas para muitos outros são sinal de rebeldia e de força. A mania das grandezas de Trump encaixa bem na mania das grandezas da América profunda.

Donald é um perigoso narcisista, dizem alguns, incapaz de sentir empatia pelos outros ou sequer de a fingir, uma das mais rentáveis artes na política. Mas talvez o narcisismo de Trump não seja mais do que o reflexo do narcisismo da América profunda.

Donald poderá não conseguir convencer a maioria dos americanos que vivem num país das maravilhas. Mas mesmo que Biden vença as eleições, Trump nunca as perderá. Há-de adaptar a realidade, distorcê-la, atropelá-la, encaixá-la na narrativa que mais o engrandece.

E durante muitos anos, a América terá de competir com o país das maravilhas de Donald. Porque mesmo imaginário, continuará a viver na visão de muitos milhões de apoiantes.

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