Eleições nos EUA

Joe Biden: uma vida moldada pela dor

Joe Biden.

Charlie Neibergall

Uma tragédia familiar podia tê-lo conduzido ao suicídio, mas resiliente por natureza, nunca desistiu. É agora um dos candidatos à Presidência dos Estados Unidos. Traçamos o perfil de Joe Biden.

O calendário marcava o mês de dezembro de 1972. Poucas semanas depois de ser eleito pela primeira vez para o Senado norte-americano, a vida de Joe Biden parecia perfeita. Sentado com a mulher junto à lareira da sua casa em Delaware, refletia no tanto que ia fazer quando chegasse a Washington. O cenário idílico e os sonhos do mais recente senador de 29 anos viriam a ser destruídos no dia seguinte quando a mulher, Neilia, e a filha de 13 meses, Naomi, morrem num acidente de carro.

As vitórias e revés da vida política de Joe Biden ficariam, para sempre, intimamente ligadas com a inimaginável tragédia pessoal.

O “Middle Class Man”, alcunha pela qual é conhecido, leva já às costas 36 anos de carreira como senador, oito anos na administração de Barack Obama e, agora, uma corrida à presidência que, caso vença, o pode consagrar como o mais velho Presidente dos Estados Unidos.

Um guia rápido sobre Biden

  • Nome: Joe Biden
  • Data de nascimento: 20 de novembro de 1942
  • Terra natal: Scranton, Pennsylvania
  • Educação: St. Helena School, St. Paul's Elementary School, University of Delaware, Archmere Academy, Syracuse University Law School
  • Mulher: Neilia Hunter (falecida), Jill Biden
  • Filhos: Joseph "Beau" Biden III (1969-2015), Hunter Biden (1970), Naomi Biden (1971-1972) e Ashley (1981).

Joseph Robinette Biden Jr. nasceu a 20 de novembro de 1942 em Scranton, na Pensilvânia, no seio de uma família católica irlandesa, mas as dificuldades económicas da família viriam a ditar uma mudança para o estado de Delaware, tinha Biden 10 anos. Apesar da partida, os laços à terra que o viu nascer manter-se iam fortes, até porque seria na cidade de Filadélfia que viria a assentar a sede da sua campanha um dia mais tarde.

Já em Delaware, o casal instalou-se com os três filhos em Claymont, uma pequena região com menos de cinco mil habitantes na altura, onde ficariam poucos anos. Mais tarde voltariam a pegar nas malas e rumar a sul, para Wilmington, onde o pai de Biden arranjou um trabalho como vendedor de carros usados.

Os primeiros anos de vida do atual candidato à Presidência dos Estados Unidos ficariam marcados pela dureza, trabalho duro e perseverança incutida pelos seus pais, sobretudo nos momentos em que entrava em casa cabisbaixo por ter sido gozado pelos colegas de escola.

Em criança, Biden sofria de gaguez debilitante. Nos recreios era apelidado de “Dash” (traço, em português), numa alusão a código morse, ou até de “Bye-Bye”, por conta das vezes que falhava ao tentar dizer o seu apelido. Mas as palavras de alento dos pais faziam com que passasse horas a praticar.

“Joey, não deixes que isto te defina. Lembra-te de quem és. Vais conseguir”, dizia-lhe a mãe sempre que saía de casa.

Já em idade adulta, o seu trabalho viria a ditar que fosse obrigado a falar em público recorrentemente, sem nunca deixar que este “obstáculo” o impedisse.

“Não tem nada a ver com o quociente de inteligência. Gaguejar, quando pensamos nisso, é o único problema do qual as pessoas ainda se riem e pelo qual humilham os outros”, disse Biden à CNN em fevereiro de 2020.

Em 1965 concluiu os estudos em História e Ciência Política na Universidade de Delaware, onde fez parte da equipa de futebol americano.

Foi durante os anos de caloiro que Joe Biden conheceu Neilia Hunter, uma jovem estudante de Syracuse por quem se viria a apaixonar numa viagem nas férias da Páscoa até às Bahamas. Encorajado por ela, dedicou-se aos estudos e foi mais tarde aceite na Faculdade de Direito de Syracuse.

Em 1966, Biden e Neilia casam.

Depois de concluir o curso de Direito em 1968, Joe Biden trabalhou brevemente como advogado antes de se dedicar à política. Tornou-se membro ativo do Partido Democrata norte-americano e em 1970 foi eleito vereador no Condado de New Castle, ao mesmo tempo que abria a sua firma de advocacia.

À semelhança da sua ocupada vida profissional, a vida pessoal era rapidamente preenchida pelo nascimento de três filhos: Joseph Biden III – nascido em 1969, Hunter Biden – em 1970, e Naomi Biden – 1971.

Um ano depois do nascimento da filha mais nova, o Partido Democrata encorajava o jovem de 29 anos a candidatar-se ao Senado. Apesar de poucos acreditarem que pudesse aguentar-se, Biden juntou a família e organizou com a sua ajuda uma campanha incansável. Em novembro de 1972, numa disputa renhida e que gerou grande afluência às urnas, Joe Biden tornou-se o quinto mais jovem senador norte-americano a ser eleito na história daquela Nação.

E o recorde não foi o único que conquistou durante os anos em que esteve no cargo. Tornou-se também o senador eleito por Delaware que serviu pelo período de tempo mais longo.

Mas ao contrário do que tudo indicava, as semanas que se seguiram à conquista de um lugar no Senado foram devastadoras para o recém-político de 29 anos. A uma semana do Natal, em 1972, a mulher de Joe Biden e os seus três filhos sofreram um acidente de carro quando saíam para comprar um pinheiro.

O acidente resultou na morte da sua mulher e da filha mais nova, Neilia e Naomi, deixando os outros dois filhos, Beau e Hunter, gravemente feridos. Inconsolável pela perda, Joe Biden chegou mesmo a considerar o suicídio, uma revelação que viria a fazer mais tarde num documentário da CNN.

“Comecei a entender como o desespero podia levar as pessoas a desistir. Como o suicídio não era apenas uma opção, mas a opção mais racional. Senti que Deus me tinha pregado uma partida horrível, estava zangado”, contou.

“Pensei como seria se conduzisse até à ponte sobre o rio Delaware e simplesmente saltasse. (…) Mas nunca entrei no carro e nunca estive perto de o fazer”.

Foram os filhos que o “salvaram” dos tempos difíceis em que chegou a ponderar ‘aconchegar-se’ nas bebidas alcoólicas, confessou, partilhando o estado frágil em que se encontrava que fazia com que fosse passear propositadamente em bairros problemáticos junto ao hospital onde os filhos recuperavam do acidente.

“Gostava de ir à noite porque pensava que seria mais provável envolver-me numa luta. Estava sempre à procura de uma discussão. Não sabia que era capaz de ter tanta raiva dentro de mim”, escreveu no livro de memórias da sua autoria - ‘Promises to Keep’ - publicado em 2007.

Joe Biden presta juramento como senador no quarto de hospital onde estavam internados os dois filhos que sobreviveram ao acidente.

Joe Biden presta juramento como senador no quarto de hospital onde estavam internados os dois filhos que sobreviveram ao acidente.

Mas o compromisso que tinha por cumprir não o deixava desistir e, com o apoio da sua família, tinha chegado a altura de executar o seu papel como representante do povo de Delaware no Senado. ‘Faltou’ à cerimónia de posse em Washington e preferiu fazer o juramento no quarto de hospital dos seus filhos.

Para que pudesse continuar a passar o maior tempo possível juntos deles, Biden tomou a decisão de continuar a viver em Wilmington, deslocando-se para Washington de comboio, um hábito que manteve durante os 36 anos que se manteve como senador.

Foram, num total, 8.200 viagens de ida e volta, cerca de 1,5 milhões de quilómetros percorridos numa média de 217 dias por ano.

  • Em janeiro de 2017 completou a sua última viagem de comboio para casa, depois de Donald Trump ser eleito Presidente.

Os anos no Senado

De 1973 a 2009, Biden focou-se sobretudo nas relações externas, no estado da Justiça e no combate ao tráfico de droga. Foi particularmente interventivo sobre o Conflito do Kosovo, no final dos anos 90, instando os Estados Unidos a tomarem uma posição contra as forças sérvias, e também na Guerra do Iraque, entre 2003 e 2011, em que propôs dividir o país em três regiões autónomas governadas por árabes xiitas, sunitas e curdos, tendo sido fortemente criticado.

Em 1987, tendo-se estabelecido como um dos mais proeminentes legisladores democráticos de Washington, Biden decidiu entrar na corrida à Casa Branca, mas acabou por abandonar depois de rumores de que teria plagiado parte de um discurso. A campanha eleitoral viria a durar pouco tempo, culpa das dores de cabeça intensas de que se queixava. Tinha dois aneurismas cerebrais potencialmente fatais.

Foi operado, mas piorou. Complicações decorrentes da cirurgia provocaram coágulos nos pulmões que, por sua vez, obrigaram a que tivesse de ser submetido a novo procedimento cirúrgico. Mas o revés, mais uma vez, não o fez desistir. Resiliente por natureza, regressou ao Senado depois de um período de recuperação de sete meses.

Passariam 20 anos desde a primeira candidatura presidencial até à segunda. Em 2007, Joe Biden decidiu voltar a colocar todas as fichas na corrida à Sala Oval da Casa Branca, mas apesar dos muitos anos de experiência no Senado, a campanha foi dominada por Hillary Clinton e Barack Obama.

Charlie Neibergall

A sua campanha presidencial de 2008 nunca chegou a ganhar impulso, mas Biden não passou despercebido e acabou por receber um convite de Obama para que concorresse a seu lado, por um lugar à vice-presidência. E viria, assim, a servir dois mandatos como 47.º vice-presidente dos Estados Unidos.

Apesar de ter assumido um papel considerado de bastidores, teve mão ativa na elaboração de políticas federais sobre o Iraque e Afeganistão, no acordo nuclear com a Rússia e no debate a nível nacional pelo controlo de acesso às armas.

A relação próxima que manteve com Obama valeu-lhe uma surpresa no fim do mandato. A 12 de janeiro de 2017, Biden foi galardoado pelo então Presidente com a Medalha Presidencial da Liberdade, a poucos dias de deixar a Casa Branca. Sem estar à espera, Joe Biden não conseguiu conter a emoção quando Obama se referiu a ele como “irmão” e “o melhor vice-presidente que a América alguma vez teve”.

Mais tarde nesse ano, Biden e a atual mulher, Jill, fundariam a “Biden Foundation”, uma organização dedicada a várias causas sociais.

  • Joe Biden casou-se com a segunda mulher, Jill, em 1977. O casal tem uma filha, Ashley, que nasceu em 1981.

Em maio de 2015, Biden sofreu mais uma perda, a morte do seu filho Beau, aos 46 anos, depois de uma prolongada batalha contra um cancro na cabeça.

“Beau Biden era simplesmente o melhor homem que algum de nós alguma vez conheceu”, escreveu.

Chegou a considerar mais uma corrida à Casa Branca, mas a especulação viu um ponto final em outubro de 2015, quando anunciou que não procuraria ser o nomeado do Partido Democrata no ano seguinte.

“Apesar de não ser candidato, não ficarei em silêncio. Pretendo falar com clareza e determinação, de forma a influenciar o tanto que puder quem somos enquanto partido e onde devemos ir enquanto Nação”, afirmou na altura.

Como prometido, Biden recusou-se a ficar quieto depois de deixar a Casa Branca no fim do mandato como vice-presidente e, conhecido pela sua rivalidade perante o sucessor de Barack Obama, Donald Trump, regressou várias vezes aos holofotes para criticar o 45.º Presidente dos Estados Unidos.

Foi o arrependimento por ter ficado de fora nas eleições de 2016, que acreditava poder ter ganho, em conjunto com os resultados de uma sondagem que mostravam que os democratas ainda não estavam prontos para o deixar fugir, que Biden terá contemplado uma nova candidatura.

Mas, desta vez, o revés teria o nome de Lucy Flores.

Num artigo publicado em março de 2019, Lucy Flores, antiga deputada do Nevada, acusou Biden de a “beijar e tocar” sem consentimento. Imediatamente, o ex-vice-presidente reagiu, relembrando os “inúmeros apertos de mão, abraços, expressões de afeto, apoio e conforto” que distribuiu ao longo dos anos, acrescentando que “nunca acreditou ter agido de forma imprópria”.

Poucos dias depois, uma funcionária do Congresso chamada Amy Lappos disse ter-se sentido desconfortável junto de Biden. Testemunhos partilhados por outras mulheres que vieram a público.

Mas os escândalos não terminaram por aqui.

No início deste ano, a ex-assistente Tara Reade revelou ter sido abusada sexualmente por Joe Biden em 1993.

“Sussurrava e tentava beijar-me e perguntava-me se não preferia ir para outro lugar”, contou numa entrevista à Associated Press. “Lembro-me de querer dizer-lhe para parar, mas não sei se cheguei a dizê-lo em voz alta ou se apenas pensei”.

Segundo a agência Reuters, Reade faz parte de um grupo de oito mulheres que, em 2019, fizeram acusações da mesma natureza contra Biden.

Em abril de 2019, Biden anunciou a já esperada candidatura à Presidência nas eleições de 2020. Candidato pelo Partido Democrata, defronta o rival republicano Donald Trump, que concorre por uma reeleição, numa votação marcada pela pandemia do novo coronavírus.

Caso vença, Joe Biden tornar-se-á o Presidente dos Estados Unidos mais velho de sempre, com 77 anos, e Kamala Harris, a sua nomeada, a primeira mulher negra vice-presidente.

As projeções nacionais apontam, a duas semanas dos eleitores irem às urnas, para uma vitória do democrata, mas a história tem mostrado que tudo pode acontecer.

Biden em 18 imagens

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