Eleições nos EUA

"Este é um país profundamente dividido neste momento"

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Ricardo da Costa Pereira é jornalista freelancer no Estado de New Jersey há cerca de dois anos e meio. Do que lê e ouve, os mais jovens, luso-descendentes ou não, irão votar Joe Biden. Os mais velhos, irão votar Trump..

Tenho 28 anos e resido nos Estados Unidos há cerca de dois anos e meio, cheguei em pleno mandato de Donald Trump.

Cheguei como jornalista e é essa profissão que continuo a desempenhar nos dias de hoje. E esta é a profissão que amo. O que faço permitiu-me conhecer muitas pessoas, especialmente dentro da comunidade luso-americana nos estados da costa leste, sendo que alguns desempenham ou desempenharam cargos políticos.

Em muitas conversas informais, percebi que não poucos luso-americanos eram pró-Trump. Muitas vezes me perguntei porque seriam imigrantes ou filhos de imigrantes apoiantes de um Presidente que tem tido atitudes dúbias perante estrangeiros a residir nos Estados Unidos, roçando até a xenofobia. E também muitas vezes perguntei ou deduzi através de conversas o porquê destas pessoas serem pró-Trump.

A economia.

Quando cheguei a este país, a economia estava a crescer a um ritmo alucinante. Não havia praticamente desemprego, qualquer pequena ou média empresa que abria portas tinha, no mínimo, um moderado sucesso. Havia dinheiro, poder de compra e, acima de tudo, investimento.

Os portugueses e luso-americanos, de primeira, segunda e terceira geração são uma comunidade respeitada nos Estados Unidos. Conhecidos como trabalhadores sem medo de sujar as mãos numa primeira fase de emigração em meados do século passado, hoje em dia existem vários luso-descendentes que são políticos, administrativos em empresas multi-nacionais, advogados, juízes, chefes de esquadras de polícias, donos de empresas de construção, etc.

A comunidade portuguesa integrou-se perfeitamente na sociedade norte-americana, numa simbiose que ocorreu de forma natural ao longo das últimas décadas, sendo parte importante no tecido socio-económico nas cidades e estados onde residem. E muitos passaram a ver a prosperidade económica como a única chave do sucesso, tanto no presente como no futuro. E vêem o socialismo com maus olhos.

A campanha de Donald Trump tem sido repleta de ataques ao seu opositor Joe Biden, acusando o candidato democrata e a sua vice-presidente de partilharem ideais socialistas, nocivos à prosperidade da economia norte-americana. E estes ideais metem medo ao povo norte-americano, e claro, à comunidade luso-americana.

Estes últimos não querem ver o trabalho e o esforço ao longo de muitos anos ser diluído em impostos mais altos e condições que os desfavorecem. São pessoas, a grande maioria com mais de 50 anos, que trabalharam muito para chegar onde chegaram. E, também a grande maioria destes, diria, irá votar Trump. Porque temem uma economia, já de si fragilizada nos dias de hoje devido à pandemia de Covid-19, a ir por um mau caminho.

Também muitos luso-americanos, como é comum aqui, têm grande parte das poupanças investidas na bolsa, outro grande trunfo de Donald Trump. Porque a bolsa gosta de Trump e Trump gosta da bolsa.

Desde que chegou ao cargo de Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump tem visto a bolsa a crescer, exceptuando uma ou outra queda, constantemente ao longo do mandato, algo que agrada a todos.

Da minha experiência pessoal, vejo, leio e oiço os mais jovens, luso-descendentes ou não, a partilhar que irão votar Joe Biden. Os mais velhos, irão votar Trump. Este é um país profundamente dividido neste momento.

Questões raciais, questões económicas e questões de saúde pública dominam o quotidiano das pessoas. De um lado, espero que a comunidade negra nos Estados Unidos vote em Joe Biden. Do outro, espero que a comunidade branca se divida, sobretudo a nível etário: os mais velhos com tendência para votar no Partido Republicano e os mais jovens no Partido Democrata.

A comunidade latina e outras minorias étnicas também prevejo que se dividam. A comunidade latina nos Estados Unidos é muito grande e prevejo que sejam muito importantes no desfecho final das eleições, nomeadamente do que diz respeito à Florida, um dos chamados swing states.

Acho que estas eleições do dia 3 de novembro são das mais importantes de sempre nos Estados Unidos, sobretudo devido ao clima de instabilidade que se vive neste país, que no momento vejo profundamente dividido.

Na minha opinião o desfecho final temo que seja parecido ao daquele que aconteceu há quatro anos.

Joe Biden está à frente nas sondagens, mas Trump conta com muitos que o apoiam mas que muitas vezes têm receio ou até vergonha de o admitir.

Espero que Joe Biden, apesar de lhe ver muitas carências a nível de carisma e até legitimidade política – vide debate Joe Biden vs Bernie Sanders –, vença. Porque os Estados Unidos merecem um presidente que una as tão diversas comunidades étnicas que existem neste país, e não que as divida como tem acontecido.

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