Eleições nos EUA

Ver a influência que Trump teve na promoção da desconfiança na ciência tem sido desolador

Ângela Crespo é investigadora de pós-doutoramento no Boston Children's Hospital/Harvard Medical School e vive em Massachussetts. Não tem ainda cidadania americana pelo que não pode votar nestas eleições, mas aceitou o desafio da SIC Notícias para escrever o testemunho de uma portuguesa que está há 10 anos nos EUA.

2012 foi a minha primeira experiência de uma campanha eleitoral americana. Foi um choque cultural – nos meus círculos em Portugal, opiniões políticas não eram tão vincadas nem geravam o tipo de conflitos que observei aqui.

O advento das redes sociais evidenciou ainda mais estas divisões – e 2016 elevou-as a um extremo nunca antes visto.

A ascensão de Donald Trump foi completamente inesperada – como conseguir racionalizar que alguém sem experiência de governo e orgulhoso dos seus preconceitos pudesse sequer ter uma hipótese de ser eleito? E no entanto, a estratégia funcionou.

Uma América que se sentia esquecida até então viu em Trump a sua oportunidade de se fazer ouvir. O desejo de voltar aos “velhos tempos” em que havia emprego para todos, menos regulamentação para empresas, valores familiares e religiosos conservadores, impostos mais baixos, menos “justiça social” e “politicamente correcto”, levou a ignorar o comportamento pouco presidencial, o desprezo pela evidência científica.

O enviesamento dos media, tanto conservador quanto liberal, enalteceu ainda mais as divisões. Foi chocante ver Trump ser eleito e ter de aceitar o que seria a realidade nos 4 anos seguintes. Vinda de um país como Portugal com um presidente como Marcelo Rebelo de Sousa, o contraste era absolutamente gritante. A figura de um presidente altamente qualificado e com uma postura decente fora destruída.

No início de 2020, não tinha dúvidas de que Trump voltaria a ser eleito. A economia tinha crescido (apesar de ter sido herdada da era Obama, mas obviamente Trump não hesitou em tomar crédito), os impostos estavam mais baixos, milionários ficaram mais ricos, e as constantes tentativas de destituição foram derrotadas e só deixaram Trump mais forte. Aqueles que sempre o apoiaram, continuavam a apoiá-lo. O partido Democrata não parecia ter candidatos fortes o suficiente para lhe fazer frente.

E então, chegou a pandemia da COVID-19. É impossível divorciar a campanha eleitoral de 2020 da resposta americana à pandemia. Se Trump perder as eleições, este terá sido o fator decisivo.

Como cientista, tem sido desmoralizador ver Trump retirar os Estados Unidos do Acordo Climático de Paris, cortar fundos para investigação científica que afetaram directamente os meus projetos, ignorar as recomendações de especialistas como Anthony Fauci, retirar os Estados Unidos da Organização Mundial de Saúde, e no geral diminuir a importância e o impacto que a pandemia tem tido nos Americanos.

Mesmo após contrair COVID-19, a mensagem que teve para os Americanos foi: “não tenham medo da COVID-19” que matou mais de 200.000 pessoas no seu país. Ver a influência que Trump teve na desinformação e na promoção da desconfiança na ciência tem sido desolador.

Joe Biden, por mais que não seja o candidato mais forte que o partido Democrata poderia ter, parece trazer alguma esperança. O facto de afirmar confiar na evidência científica e prometer agir em conformidade é animador. Não é, no entanto, completamente certo que vá ganhar – os Americanos mais preocupados com a economia e os valores religiosos continuam a preferir o Partido Republicano. Mesmo as demografias que se esperava serem apoiantes dos Democratas devido aos seus valores de justiça social, como a comunidade latina/hispânica, não podem ser vistas só desse ângulo.

Muitos dos imigrantes hispânicos mais estabelecidos vêem-se já como cidadãos americanos, e dão muita importância aos valores republicanos – família, trabalho e religião. A família do meu marido, peruana de origem, é um exemplo muito próximo que me ajuda a ter uma perspectiva diferente do que se me limitasse à bolha liberal que é Boston, Massachussetts, onde vivo.

Em suma – nesta fase, a esperança de que os próximos 4 anos possam ser diferentes é agora mais palpável do que no início do ano. Claro que muitos Americanos ficarão descontentes com uma presidência democrata, mas sinto que em determinadas áreas haverá progresso em vez de retrocesso como se tem sentido nestes últimos anos.

Acompanhe o especial Eleições nos EUA para mais informações.

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