Eleições nos EUA

As polémicas que quase destruíram a campanha de Joe Biden

Damir Sagolj

Recorde os pontos baixos da campanha e as declarações impossíveis de esquecer.

A campanha eleitoral de Joe Biden fica marcada pela polémica da Ucrânia e as acusações do movimento #MeToo. Mas para além da controvérsia, revemos as gafes indissociáveis. Ao longo das décadas de serviço público, o ex-senador, ex-vice-presidente e atual candidato presidencial conquistou a reputação de dizer as coisas erradas na hora errada.

Ucrânia

Em setembro de 2019, a campanha de Biden preparava-se para o “Steak Fry” de Iowa, uma espécie de churrasco que já é tradição entre os democratas e um evento especialmente importante para os candidatos à Presidência, quando um denunciante divulgou que Donald Trump tinha pedido ao seu homólogo ucraniano que investigasse as negociações de Joe Biden e do filho naquele país.

Charlie Neibergall

Assim que a notícia foi conhecida, Donald Trump apontou o dedo a Joe Biden, acusando-o de ter pedido a demissão de um procurador ucraniano, na altura em que era vice-presidente, responsável pela investigação à Burisma, uma empresa de gás natural na qual o filho, Hunter Biden, tinha um lugar no conselho de administração. E as perguntas começaram, sobretudo sobre o papel do então vice-presidente na Ucrânia.

Os assessores de Biden reagiram furiosamente, enviando comunicados para todos os meios de comunicação e redirecionando a polémica de volta para Donald Trump, acusando-o de ter tanto medo de enfrentar Joe Biden que seria até capaz de cometer uma ofensa que justificaria a sua destituição do cargo de Presidente. Um processo que acabaria com absolvição de Donald Trump, acusado de crimes de abuso de poder e de obstrução ao Congresso.

Apesar de, até ao momento, não ter sido provada qualquer atividade criminosa, continuam a ser levantadas questões sobre um potencial conflito de interesses. Razão que levou Joe Biden, no ano passado, a garantir que se for eleito Presidente, ninguém da sua família manterá um cargo ou ligação a qualquer empresa ou Governo estrangeiros.

O escândalo #MeToo

Lucy Flores

Lucy Flores

John Locher

O movimento #MeToo ganhava cada vez mais impulso nos Estados Unidos quando Joe Biden se viu envolvido num escândalo sexual. Começou com as revelações de Lucy Flores, ex-deputada do Nevada, que descrevia encontros desconfortáveis com Joe Biden, recordando em especial um momento em que o atual candidato à Presidência lhe colocou as mãos sobre os ombros e lhe deu um “beijo demorado na parte de trás da cabeça”. Mas Lucy Flores não foi a única e outras oito mulheres viriam a seguir os seus passos e recordar episódios semelhantes com Biden.

As acusações levaram a uma especulação crescente de que Biden iria desistir da corrida à Casa Branca, mas nem os escândalos o fizeram dar um passo atrás.

“As normais sociais mudaram. E os limites do espaço pessoal de cada um foram redefinidos. Eu entendo. Oiço o que estão a dizer e percebo. Serei mais atento e cuidadoso. É a minha responsabilidade”, disse, num vídeo publicado na altura.

  • Março de 2019. Lucy Flores acusa Biden de comportamento impróprio durante um evento em 2014.
  • Abril de 2019. Tara Reade, antiga secretária de Biden, acusa-o de lhe “tocar de uma forma que a deixou desconfortável” em 1993. Em março de 2020, acusa-o de abuso sexual também em 1993.
Tara Reade

Tara Reade

Donald Thompson

  • Abril de 2019. Ally Coll, ex-funcionária do Partido Democrata, conta ao Washington Post que, em 2008, Biden elogiou o seu sorriso, apertou-lhe os ombros e abraçou-a durante “demasiado tempo”.
  • Sofie Karasek, ativista dos direitos das mulheres, é fotografada durante os Óscares de 2016 de mãos dadas e com a testa encantada à de Biden. Em 2019, viria a dizer ao Washington Post que sentiu que Biden invadiu o seu espaço pessoal.
  • Amy Stokes, ativista democrática, contou em abril de 2019 como pensou que Joe Biden a ia beijar pela forma como a puxou para junto de si. “Pôs as mãos na minha cabeça e puxou-me para tão perto que pensei que me ia beijar”. O incidente terá ocorrido durante um evento de angariação de fundos.
  • Caitlyn Caruso contou, em abril de 2019, que depois de partilhar a sua história de abuso sexual em 2016 num evento na Universidade de Nevada, Joe Biden a abraçou “durante demasiado tempo” e colocou a mão na sua coxa.
  • Abril de 2019. DJ Hill recorda como num evento em 2012 no Minneapolis, Joe Biden lhe tocou no ombro e deslizou a mão pelas suas costas, uma situação que a deixou “extremamente desconfortável”.
  • Vail Kohnert-Yount, antiga estagiária da Casa Branca, conta como quando conheceu Biden, em 2013, ele “colocou a mão no meu pescoço e pressionou a sua testa contra a minha”, afirmando ainda que noutra ocasião Biden lhe chamou “bonita”.

As declarações polémicas sobre negros

“Se têm um problema em decidir se me apoiam ou ao Trump, então não são negros”

Referindo-se ao eleitorado negro, Joe Biden disse durante uma entrevista a um programa de rádio que os eleitores que estão indecisos em quem apoiar “não são negros”. A declaração motivou uma série de críticas e obrigou mesmo a um pedido de desculpas oficial.

“Armei-me em esperto. Não deveria ter sido tão arrogante”, disse, garantindo que não voltaria a tomar por garantido o apoio da comunidade afro-americana

“As crianças pobres são tão inteligentes quanto as crianças brancas”

A gafe foi cometida durante um discurso no estado de Iowa em agosto de 2019, sobre educação e a necessidade de desafiar os alunos, e acabou por agravar o histórico de Biden no que diz respeito a questões de raça.

“Devemos desafiar os alunos destas escolas. Enquanto sociedade temos esta ideia de que se forem pobres não são bons alunos. Mas as crianças pobres são tão inteligentes e talentosas como as crianças brancas”, disse, fazendo uma pequena pausa e acrescentando “crianças ricas, crianças negras, crianças asiáticas”.

A frase gerou tanta polémica que o candidato se viu obrigado a retratar-se poucos dias depois.

Errei, queria dizer ‘ricos’. Já expliquei 15 vezes e expliquei-o na altura. E portanto, não acredito que alguém pense que eu queria dizer outra coisa a não ser o que disse”.

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