Eleições nos EUA

Primeiro debate Trump/Biden: insultos, impostos e acusações

Brian Snyder / Reuters

Norte-americanos consideram que debate não atingiu objetivo de atrair eleitores indecisos.

Num primeiro debate muito conflituoso, foram abordados os temas mais quentes da campanha, incluindo a nomeação para o Supremo Tribunal, o estado da economia, a pandemia de Ccovid-19, o sistema de saúde e o histórico de ambos, com trocas de insultos e acusações mútuas.

O primeiro debate presidencial decorreu esta madrugada em Cleveland, Ohio, com a moderação do apresentador da Fox News, Chris Wallace,

"Vais-te calar, homem?"

O candidato democrata Joe Biden mandou calar o Presidente dos Estados Unidos depois de ter sido interrompido várias vezes por Donald Trump num debate muito conflituoso.

"Vais-te calar, homem?" disse Biden.

O candidato democrata falava depois de ser questionado pelo moderador, Chris Wallace, sobre a possibilidade de adicionar mais um lugar ao Supremo Tribunal, pergunta a que não respondeu diretamente.

No entanto, Biden afirmou que a vaga deixada pela morte da juíza progressista Ruth Bader Ginsburg não deve ser preenchida antes das eleições e que os eleitores devem ter a oportunidade de decidir quem vai nomear o próximo juiz da instituição.

Donald Trump, que nomeou a juíza conservadora Amy Coney Barrett para o lugar, disse que "tem todo o direito" de preencher a vaga e que os democratas só não con seguiram confirmar Merrick Garland em 2016 "porque não tiveram a eleição".

Há quatro anos, o Senado controlado pelos republicanos impediu o então Presidente norte-americano, Barack Obama, de nomear Merrick Garland para o lugar de Antonin Scalia durante mais de nove meses, argumentando que deveria ser o próximo Presidente a fazê-lo.

O mesmo Senado, liderado por Mitch McConnell, inverteu agora a sua posição e pretende confirmar a nomeada de Trump independentemente dos resultados das eleições.

O Supremo Tribunal foi uma das várias questões abordadas durante hora e meia de debate, onde os candidatos trocaram insultos e acusações.

Troca de insultos e acusações

Numa instância, Biden disse ser " difícil responder a seja o que for com este palhaço" e afirmou que ele é "o pior Presidente que a América já teve". Noutras ocasiões, afirmou que Trump é "racista", "mentiroso", "fantoche de [Vladimir] Putin" e "sem conhecimento" do que diz.

Donald Trump, por seu lado, colocou em causa a inteligência de Joe Biden, dizendo-lhe para não há "nada de esperto" no oponente democrata.

Trump acusou ainda Biden de chamar aos militares do exército "bastardos estúpidos", algo que o democrata negou.

O moderador e apresentador da Fox News, Chris Wallace, pediu repetidamente a Donald Trump que deixasse Joe Biden responder às questões, tendo acontecido com frequência o Presidente norte-amricano falar por cima do oponente de forma agressiva.

Trump lançou ainda várias acusações de corrupção e vício de drogas ao filho de Joe Biden, Hunter Biden, que o democrata defendeu vigorosamente, dizendo que "não fez nada de errado" e que "tem orgulho" nele.

Trump e Biden no primeiro frente a frente antes das eleições

Recuperação económica depende de controlo da pandemia, diz Joe Biden

O candidato democrata às presidenciais norte-americanas, Joe Biden, defendeu hoje que a recessão económica nos Estados Unidos não será debelada enquanto a pandemia de covid-19 continuar fora de controlo, durante o primeiro debate contra Donald Trump.

"Não se pode recuperar a economia enquanto não se resolver a crise de covid", disse o candidato democrata.

Biden acusou Trump de saber desde fevereiro que a covid-19 era muito perigosa e de ter escondido essa informação do público norte-americano, porque "entrou em pânico" e não queria prejudicar os mercados financeiros.

"Quantos de vocês acordaram esta manhã e tinham uma cadeira vazia porque um membro da família morreu de covid-19?", questionou Biden, dirigindo-se aos eleitores norte-americanos.

"Ele continua a não ter um plano", acusou, contrapondo que a sua estratégia é detalhada e inclui financiar os equipamentos de proteção necessários para reabrir estabelecimentos comerciais e escolas em segurança.

"A culpa foi da China", insiste Trump

Donald Trump defendeu a sua reação à pandemia, dizendo que "a culpa foi da China" e que salvou milhares de vidas ao interditar a entrada a nacionais do país onde o surto começou.

"Os governadores dizem que eu fiz um trabalho fenomenal", afirmou o Presidente norte-americano, garantindo que se está "a semanas de uma vacina".

Todavia, o moderador Chris Wallace confrontou o Presidente com as perspetivas de dois dos responsáveis clínicos da sua administração, que apontam para um calendário mais distante de distribuição em massa da vacina, em meados de 2021.

"Discordo de ambos", disse Trump, referindo-se a Moncef Slaoui, diretor do programa governamental para a vacina "Operation Warp Speed", e Robert Redfield, diretor do Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças.

Os Estados Unidos são o país mais afetado pela pandemia, com mais de 7,1 milhões de infetados e cerca de 205 mil mortos, de acordo com os números da Universidade Johns Hopkins.

O Presidente republicano também defendeu a realização de comícios com milhares de participantes, violando regras para controlar a pandemia, dizendo que o oponente não o faz porque não consegue atrair apoiantes.

Sobre o impacto económico da crise sanitária, Trump acusou o democrata de querer voltar a fechar o país.

"Construímos a melhor economia da história e tivemos de a fechar por causa da praga da China", disse o Presidente. "Agora estamos a reabrir e a bater recordes de negócios. Nunca ninguém viu algo assim. Ele vai fechar o país inteiro".

Biden, por seu lado, disse que Trump "não está preocupado" com a saúde dos cidadãos, acusando-o de querer retirar-lhes a cobertura fornecida pelo "Affordable Care Act" (conhecido como Obamacare), e de ter sido "totalmente irresponsável" ao incentivar as pessoas a não usarem máscaras.

"Não confio nada nele, confio nos cientistas", declarou Biden.

Trump diz que pagou "milhões de dólares" em impostos

O Presidente dos Estados Unidos disse que pagou "milhões de dólares" em impostos federais, sem especificar montantes nem se comprometer a divulgar a sua declaração de impostos.

"Paguei milhões em impostos sobre o rendimento", afirmou, respondendo a uma questão do moderador do debate, Chris Wallace, depois de uma investigação do New York Times, que terá tido acesso às declarações de impostos de Donald Trump, ter concluído que o Presidente norte-americano pagou apenas 750 dólares por ano desde o início da sua presidência.

"Vocês vão ver", disse Trump, sobre as declarações de impostos que até agora não divulgou porque, segundo diz, estão sob auditoria. O Presidente dos EUA não se comprometeu, todavia, à revelação das suas declarações de impostos.

Ainda assim, Trump afirmou que, tal como qualquer cidadão, "não quer pagar impostos" e procura todas as formas de dedução para reduzir o que paga.

Joe Biden, o oponente democrata, acusou Trump de pagar muito pouco, "apenas 750 dólares" de impostos federais sobre o rendimento e de ter criado uma economia que funciona para milionários.

"O código fiscal colocou-o na posição de pagar menos impostos que um professor", criticou Biden, declarando que, se for eleito Presidente, vai voltar a subir a taxa de imposto às empresas para 28%. A subida, disse, resolverá o problema atual de haver grandes empresas que pagam pouco ou nada em impostos.

Julio Cortez/ AP

Trump recusa condenar supremacistas brancos


O Presidente dos Estados Unidos recusou-se a condenar os supremacistas brancos e membros de milícias espalhados pelo país.

"Quase tudo o que vejo vem da ala esquerda e não da ala direita", afirmou, depois de questionado pelo apresentador da Fox News Chris Wallace, que moderou a noite.

Trump pediu então ao grupo de extrema-direita Proud Boys que "se afaste" e fique "à espera", em 'stand by'.

"Alguém tem de fazer alguma coisa por causa dos antifa [antifascistas] e da esquerda", disse o Presidente norte-americano.

Segundo o jornalista da NBC Ezra Kaplan, as afirmações de Trump foram bem recebidas pelos Proud Boys, que disseminaram as palavras pelas redes sociais como um reconhecimento e uma chamada à ação.

Joe Biden retorquiu que o próprio diretor do FBI da administração Trump, Chris Wray, disse que "antifa" é uma ideologia, não um grupo organizado. Trump disse que o diretor do FBI está errado.

Biden, o candidato democrata, afirmou que foram os comentários de Donald Trump sobre os acontecimentos de 2017 em Charlotsville, ao dizer que havia boa gente dos dois lados quando supremacistas brancos marcharam sobre a cidade, que o levou a candidatar-se a presidente. "Isto é sobre decência", disse.

O democrata, que mencionou a morte do afro-americano George Floyd, considerou que "há injustiça sistémica neste país" e que, embora a maioria dos polícias sejam bons, há "maçãs podres" que têm de ser responsabilizadas pelos seus atos.

Donald Trump posicionou-se como o Presidente da "lei e ordem" e acusou Biden de querer abolir as forças de segurança. No entanto, Biden contrariou a ideia de cortar o financiamento à polícia, algo que tem sido defendido por uma das alas mais progressistas da esquerda no país.

Trump disse que há várias cidades democratas, como Portland e Nova Iorque, a serem arruinadas por uma grande subida da violência. O moderador Chris Wallace afirmou, no entanto, que a escalada do crime violento também está a verificar-se em cidades controladas por republicanos, como Tulsa.

O governante foi também chamado por Wallace a explicar porque acabou com o treino de sensibilidade racial e respondeu que tal "era uma revolução radical" a ser operada no exército e nas escolas e que "estavam a ensinar às pessoas a odiar" os Estados Unidos.

OLIVIER DOULIERY / POOL

Norte-americanos consideram que debate não atingiu objetivo

O objetivo central dos debates televisivos é que os eleitores indecisos nos Estados Unidos (EUA), que constituem apenas cerca de 5% do eleitorado, mas que são o principal alvo das campanhas, possam formar opiniões mais fortes e apoio a uma das candidaturas.

Para alguns cidadãos que visualizaram o debate em casa, porém, isso não terá acontecido, devido às frequentes interrupções entre os dois oponentes.

"Isto deixará os eleitores indecisos mais confusos ainda, porque ambos estão a agir como crianças", escreveu Patricia, numa das muitas reuniões virtuais que se organizaram na noite passada, em substituição de eventos presenciais em locais públicos para se ver o debate.

A resposta foi rápida de um outro participante que escreveu:

"Dois homens brancos, velhos e privilegiados... o que esperávamos?".

O especialista em debates David Birdsell, reitor da Escola de assuntos públicos e internacionais da universidade Baruch College, disse durante o debate que "é inédito este nível de desrespeito das regras, por parte de qualquer candidato em qualquer ciclo eleitoral anterior".

As bases de apoiantes continuam a ser iguais e da mesma dimensão, argumentaram os docentes da mesma universidade Douglas Muzzio e Eric Gadner, que estimou que só Biden terá sido capaz de "marginalmente" aumentar o seu apoio.

O facto de Donald Trump e Joe Biden se interromperem um ao outro foi desprezado por muitos espetadores, alguns descrevendo o debate no final como "uma discussão entre dois adolescentes".

De opinião um pouco diferente foi Douglas Muzzio, que considerou ter ficado com uma compreensão mais profunda do caráter de cada um dos candidatos e Allison Hahn, que gostou de ver "o que acontece quando a pressão está em cima" de cada um.

Os eventos virtuais organizados por diversas entidades na noite passada consistiram em declarações iniciais dos apresentadores e a transmissão, em partilha de ecrã, do debate, com a caixa de comentários a ficar preenchida.

"Vergonhoso" foi uma palavra repetida em muitas opiniões dos participantes, com Riley, um dos participantes, a questionar "o quão absurdo deve parecer tudo isto à liderança mundial que assiste ao redor do globo".

Para o professor e autor Don Waisanen "a linha entre a observação de sondagens credíveis e a intimidação dos eleitores é ténue".

Henry, outro dos participantes, disse que "Biden foi coerente", uma das características que iam ser mais observadas durante o primeiro debate presidencial, depois de Donald Trump acusar repetidamente que o "sonolento" oponente ia precisar de medicamentos para estar atento.

Douglas Muzzio interveio mais uma vez no diálogo público considerando que "é difícil ser coerente quando estás a ser sempre interrompido" e refletindo que Trump foi "o mais rude e inculto".

A estudante Deborah lamentou a falta de representatividade nos assuntos discutidos e disse que "foi oferecido aos jovens desta noite um debate pobre".

Os próximos dois debates

Estão marcados mais dois debates, sendo que a acrimónia desta noite levou alguns comentadores da CNN, estação que transmitiu o debate, a questionar se Joe Biden deverá ou não continuar com o plano de voltar a estar em palco com Trump.

O próximo debate do ciclo eleitoral será entre os candidatos a vice-presidente, Mike Pence (republicanos) e Kamala Harris (democratas), a 07 de outubro.

Donald Trump e Joe Biden: as diferenças e semelhanças nas propostas dos dois candidatos