Desafios da Mente

Mentes vencedoras: a resiliência

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Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

O conceito de resiliência tem sido alvo de significativo investimento científico no domínio da ciência psicológica, pelo que a sua reflexão, ao longo dos anos, estendeu-se ao contexto desportivo, dada a sua importância para perceber as diferenças nos resultados, quer em termos individuais, quer em termos coletivos.

O que é a resiliência?

Apesar da controvérsia, a resiliência refere-se a um padrão de funcionamento adaptativo após a experiência e/ou exposição a uma situação de adversidade. A resiliência não significa invulnerabilidade, mas sim maior capacidade de manter o funcionamento normativo perante uma situação de stresse ou adversidade.

O tópico da resiliência é importante no desporto, porque os atletas devem utilizar e otimizar um conjunto de características psicológicas para resistir às pressões que sofrem.

Trata-se de um processo dinâmico entre as situações potencialmente geradoras de stresse e diferentes fatores de risco e de proteção, não sendo um atributo estável.

Fábio Silva, futebolista português a jogar em Inglaterra, explica como consegue recuperar o bem-estar nos momentos mais difíceis.

Que fatores de risco podemos encontrar?

O stresse inerente ao contexto da competição é uma exigência ambiental relevante que pode envolver diversos aspetos, tais como a preparação, as lesões, a pressão, o mau desempenho, as expetativas e a rivalidade.

Ao nível das lesões, refira-se o risco de sofrer uma lesão, o risco de ser lesionado deliberadamente pelo adversário, a determinação da causa da lesão, a incapacidade de treinar, a impossibilidade de marcar presença em competições importantes, a perda de aptidão física, a incerteza sobre a obtenção de níveis de desempenho similares ao momento antes da lesão, entre outros aspetos.

Um dos fatores de stresse mais comum experimentado pelos atletas é a expetativa de desempenho, sejam as pressões que um atleta de competição coloca sobre si próprio, sejam as pressões colocadas por uma fonte externa, tais como ser o favorito devido ao investimento realizado, jogar bem em benefício da equipa, competir em direto na televisão, lidar com as críticas nas redes sociais.

São também de considerar a avaliação de desempenho pelos treinadores e colegas de equipa, o não querer desapontar treinadores e colegas de equipa e a procura de reconhecimento.

Para além do stresse organizacional que abrangem as questões de liderança (por exemplo, personalidade e atitudes do treinador), questões culturais e de equipa (por exemplo, interações com os colegas de equipa, comunicação, objetivos coletivos), questões logísticas e ambientais (por exemplo, instalações, equipamentos, condições meteorológicas, viagens, alojamento, regras e regulamentos, segurança) e questões de desempenho e pessoais (por exemplo, lesões, finanças, dieta e hidratação, transições de carreira), podem existir tensões na vida familiar não desportiva que densificam as exigências ambientais sentidas pelo atleta, tais como a ligação trabalho-vida, questões familiares e a morte de uma pessoa significativa.

Com relevância para os jovens atletas, nas fases iniciais da sua carreira, surgem as dificuldades associadas a compromissos académicos, a necessidade de equilibrar objetivos educativos e desportivos com relações pessoais.

E que fatores protetores podemos encontrar?

Vários autores têm descrito as características de personalidade como um fator de proteção importante. As principais características que foram consideradas como tendo um impacto desejável nas reações e respostas dos atletas envolvem o otimismo, a competitividade, a esperança e a proatividade.

Também a motivação tem merecido atenção. Os níveis ideais de motivação são consistentemente relatados como um atributo psicológico necessário para resistir ao stresse e à pressão no desporto.

Por exemplo, os campeões olímpicos tinham múltiplos motivos para competir ao mais alto nível, incluindo "ser o melhor que se pode ser", reconhecimento social, paixão pelo desporto, alcançar objetivos de abordagem progressiva e demonstrar competência.

Rui Patrício, o guarda-redes da seleção nacional, atualmente ao serviço do Wolverhampton, confessa que sempre teve o sonho de chegar à mais alta competição. Por isso, dava o máximo em todos os treinos e jogos.

Na verdade, em ambientes desportivos, a motivação demonstrou prever resultados adaptativos, tais como melhor bem-estar, maior esforço, interesse e persistência e orientações desportivas positivas.

Os desportistas de alta velocidade são capazes de prever rotas alternativas face a bloqueios, desenvolver múltiplas estratégias para ultrapassar obstáculos e exibir elevados níveis de dedicação e energia na prossecução de objetivos desejáveis.

Merecem ainda referência a confiança, a capacidade de uma pessoa manter o foco sobre o que é mais importante numa dada situação e o suporte social percebido.

A investigação demonstra, por exemplo, que os campeões olímpicos estavam protegidos das pressões do desporto de elite ao perceber que lhes era disponibilizado apoio social de alta qualidade por parte da família, treinadores, companheiros de equipa e restante staff.

O que contribui para uma performance desportiva de excelência?

O desempenho excelente é resultado de uma multiplicidade de características psicológicas, designadamente níveis elevados de motivação, autoconfiança, compromisso e concentração.

São atletas que definem objetivos claros e específicos, valorizam o rendimento individual, utilizam a visualização mental, apresentam bom controlo da ansiedade e possuem capacidade para lidar eficazmente com situações imprevistas.

A par do referido, as respostas emocionais de determinado atleta e a capacidade deste para as regular de modo a poder experienciar emoções adequadas constituem uma competência fundamental para o sucesso desportivo, uma vez que as emoções positivas neutralizam os efeitos das emoções negativas, proporcionando a adaptação ao stresse e auxiliando a aquisição de estratégias de resolução mais eficazes.

A interpretação e a avaliação das situações influenciam os processos cognitivos, fisiológicos e emocionais e, consequentemente, o próprio desempenho. A capacidade do atleta para compreender as emoções antes, durante e depois da competição, a sua vulnerabilidade a estas emoções e a forma como são geridas, apresentam-se como aspetos fundamentais para o sucesso desportivo.

Todas as características mencionadas podem e devem beneficiar da atuação da Psicologia do Desporto, que terá como finalidade melhorar o rendimento, o desenvolvimento pessoal e social, o bem-estar e as competências psicológicas relevantes para o sucesso.

O autocontrolo

O autocontrolo tem sido considerado uma importante característica associada não só ao ajustamento psicológico e bem-estar, mas também ao sucesso e performance de excelência em contexto desportivo.

Falar de autocontrolo é falar na capacidade de regular a atenção, as emoções e o comportamento perante uma tentação. Assim se percebe porque atletas com recursos de autocontrolo diminuídos não conseguem regular a sua atenção e evitar a tendência causada pela ansiedade para se focarem em estímulos distrativos, como as preocupações, o que prejudica o desempenho. Indivíduos com valores baixos de autocontrolo tendem a ser mais impulsivos e a agir de forma automática, o que conduz a mais conflitos interpessoais e perda da qualidade no sono.

Por outro lado, os atletas com maior autocontrolo conseguem evitar os efeitos negativos da ansiedade e controlar a sua atenção, evitando situações que possam levar à perda de controlo. A capacidade de autocontrolo permite aos atletas reduzir os seus estados de perceção de stresse e de ameaça na competição desportiva. É precisamente a capacidade de autocontrolo que permite aos atletas controlar a sua atenção e evitar os efeitos negativos da ansiedade.

Uma excelente notícia é que o autocontrolo é uma capacidade que pode ser trabalhada, existindo programas de intervenção eficazes na sua promoção. Por exemplo, o uso do relaxamento pode ser usado para promover o autocontrolo e regular a ansiedade.

Em conclusão, o autocontrolo depende de conhecimentos e competências que podem ser aprendidas, praticadas e reforçadas, potenciando o sucesso e melhoria do bem-estar num contexto tão exigente e desafiante como é a competição desportiva.

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