Desafios da Mente

Prevenção dos maus-tratos infantis e experiências adversas na infância

Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

Reza a história que, em 1989, a iniciativa de uma mulher norte americana, Bonnie W. Finney, em homenagem ao seu neto, vítima mortal de maus-tratos, teve uma repercussão de tal ordem que abril passou a ser o mês Internacional da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância e surgiu o movimento do laço azul. Os maus-tratos podem apresentar diferentes formas, das mais evidentes às mais silenciosas, mas nem por isso menos penosas ou fatais.

Experiências adversas na infância

As experiências adversas na infância dizem respeito a eventos traumáticos que constituem ameaças graves e permanentes ao bem-estar e desenvolvimento integral, com repercussões durante toda a vida. Por isso, são identificadas como fatores de stresse infantil e uma ameaça à saúde pública, embora não devidamente enfrentada.

São exemplos a violência física, sexual ou emocional; a negligência física ou emocional; a separação/divórcio parental; viver com um familiar que sofre de doença mental não compensada ou com perturbação aditiva; ter um familiar próximo preso; a exposição a violência doméstica, por sinal, uma experiência adversa bem documentada e que pode ter impactos duradouros na saúde destas crianças até à sua idade adulta.

Posteriormente, foram também reconhecidas como experiências traumáticas o bullying, o casamento forçado, a pobreza, a violência comunitária e a discriminação (racial, género, orientação sexual), entre outras.

As raparigas e os rapazes diferem nos níveis de exposição a fatores de risco e nas associações entre esses fatores de risco e as respetivas consequências.

A experiência de abuso e agressão sexual, por exemplo, é mais prevalente entre as raparigas, enquanto que o abuso físico tende a estar mais presente entre nos rapazes. Por sua vez, as mulheres relataram ter sofrido mais experiências adversas na infância do que os homens.

Deste modo, o estudo das experiências adversas na infância constitui uma forma de pensar sobre os fatores contextuais e familiares, bem como no seu inegável impacto para a saúde como um todo.

Como tudo começou

Uma pesquisa rápida pela internet permitirá encontrar inúmeros artigos científicos e investigações sob o mote das Adverse Childhood Experiences (ACEs), que significa experiências adversas na infância.

O estudo das experiências adversas na infância começou, na Califórnia, por Vincent J. Felitti com o objetivo de determinar o impacto negativo das referidas experiências na vida adulta, em particular no que diz respeito à saúde física.

Este estudo, originalmente, incluiu mais de 17 mil participantes e continua a rastrear ativamente os resultados da saúde dos participantes até aos dias de hoje. Neste estudo, foi, então, avaliada a existência de experiências adversas na infância e, por sua vez, o estado de saúde na vida adulta.

No início dos anos 90, percebeu-se que os fatores de risco para as doenças crónicas não se encontravam distribuídos de forma homogénea na sociedade. Neste sentido, este estudo foi desenvolvido para responder à seguinte pergunta: Se os fatores de risco para doenças, incapacidade e mortalidade precoce não se encontram distribuídos de forma aleatória pela sociedade, que influências existem para o seu desenvolvimento?

Esta pergunta tinha como objetivo chegar a respostas que permitissem desenvolver programas mais eficazes de prevenção de doenças, dado o maior conhecimento acerca da origem dos fatores de risco associados.

Desde a publicação do referido estudo, emergiram duas descobertas notáveis. Primeiro, foi demonstrado que o número de experiências adversas na infância aumenta a probabilidade de experimentar resultados negativos na saúde e no comportamento.

Em segundo lugar, as experiências adversas na infância estão altamente inter-relacionadas e os indivíduos que relatam pelo menos uma experiência adversa na infância são suscetíveis de relatar outras experiências adversas.

Preocupações acrescidas em tempo de pandemia

É inegável que a pandemia pode aumentar o risco de experiências adversas na infância. Basta pensarmos que, segundo a Administration for Children and Families, mais de 78% dos abusos e negligências infantis são cometidos pelos progenitores, os mesmos com quem as crianças estiveram um longo período em confinamento, longe de potenciais apoios sociais, como professores, ou até mesmo outros familiares.

Para além da questão da etnia, os estudos anteriores sugeriram que o baixo estatuto socioeconómico, bem como o isolamento, são fatores de risco importantes para as experiências adversas na infância.

Vale a pena considerar também o impacto económico desta pandemia, tanto em termos diretos nas crianças e nas famílias, como nos prestadores de cuidados.

Em termos comparativos, aquando da última grande recessão, à medida que o desemprego aumentou, também no Google aumentou a pesquisa de frases como "a minha mãe bateu-me" ou "o meu pai bateu-me", para além de pesquisas sobre como denunciar e identificar o abuso e negligência de crianças, apesar do declínio nas denúncias aos serviços de proteção infantil. Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos da América, a taxa de mortalidade infantil aumentou nos estados mais duramente atingidos pela recessão.

Está na expectativa de todos o fim desta pandemia, mas nessa altura será importante que a resposta de saúde pública tenha em consideração o aumento da adversidade que tantas crianças poderão ter experimentado e as formas como foram isoladas dos apoios necessários à construção de resiliência.

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    Assegurar o desenvolvimento saudável de todas as crianças é essencial para as sociedades que procuram alcançar o seu pleno potencial sanitário, social e económico. A prevenção da adversidade precoce deve ser uma preocupação diária e não apenas assunto no mês de abril, mês Internacional da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância. Os Governos, as famílias, as comunidades e as organizações devem ser envolvidas a fim de alcançar estes objetivos.