Desafios da Mente

A Psicologia da Pandemia

Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

O ano de 2020 marcou um momento histórico que será estudado e recordado, provando que o mundo não estava preparado para as múltiplas alterações provocadas pelo impacto de uma pandemia como a COVID-19.

Porquê Psicologia da Pandemia?

Em traços gerais, a Psicologia pode ser definida como o estudo científico do comportamento, da personalidade e dos processos mentais, ou seja, o ser humano nas suas diferentes dimensões. Quando falamos em pandemia, estamos, para além das questões médicas, virais ou epidemiológicas, a falar de pessoas e dos seus comportamentos.

Ora vejamos, estamos, desde o início, a falar sobre se as pessoas colocam, ou não, a máscara; se lavam, ou não, as mãos; se mantém, ou não, as distâncias. É pouco sensato falar desta realidade, e de uma possível mudança de comportamentos, sem falar de Psicologia, pelo menos se quisermos compreender e enfrentar a COVID-19.

Adicionalmente, a Psicologia marca também uma relevante presença no tópico da comunicação de riscos, ou seja, a forma como as mensagens são transmitidas pelos canais oficiais, através de mensagens eficazes, ajudam no controlo e prevenção da pandemia. Por exemplo, sabe-se que a comunicação realizada pelas autoridades públicas constitui um elemento essencial e indispensável, em qualquer resposta, a uma situação que possa ameaçar quer a vida humana, quer bens patrimoniais e que as mensagens consistentes e divulgadas ao longo do tempo são mais eficientes.

O contributo da Psicologia da Pandemia é, assim, de extrema relevância, visto que perante um cenário pandémico, uma resposta eficaz pode contribuir para a redução da prevalência da doença e da letalidade, bem como mitigar os seus efeitos negativos a nível social, económico e de segurança nacional.

Qual o impacto da pandemia na saúde mental?

Como o passado nos tem mostrado, é inegável que as pandemias representam uma ameaça à saúde pública.

A verdade é que, apesar de a grande aposta e esperança passar pelo aparecimento de uma vacina que nos permita ficar imunes a esta doença e voltar em segurança ao mundo, as alterações globais e nacionais já deixaram as suas marcas, as quais se repercutem na saúde mental.

Para além da ameaça à saúde física da população em geral, a pandemia potenciou uma pluralidade de respostas psicológicas pelo aumento progressivo de casos confirmados e suspeitos como o confinamento compulsivo no domicílio ou em estabelecimentos de saúde, a diminuição da disponibilidade de equipamentos de proteção individual e/ou a cobertura exaustiva da comunicação social capaz de levar o nosso sistema de alerta e medo a estar constantemente ativado. Com o encerramento ou limitação às atividades de empresas, estabelecimentos e meios de produção, várias pessoas arriscaram uma situação de desemprego, intensificando ainda mais a vivência de sentimentos negativos.

Perante o exposto, torna-se razoavelmente difícil qualquer pessoa experienciar um evento com estas dimensões sem sofrer alterações. O grau de intensidade e a variedade das reações, que uma pandemia pode gerar, variam em função de diferenças individuais. O medo do desconhecido e, neste caso, do alastramento da doença e do impacto sobre as pessoas, na saúde, nos hospitais e na economia, por exemplo, provoca o aumento da ansiedade em indivíduos saudáveis, bem como naqueles com problemas de saúde mental pré-existentes. A sensação de perda de controlo suscita medo e incerteza, uma vez que a evolução da trajetória de uma pandemia está em constante mudança.

Num estudo nacional que realizei com outros colegas, nomeadamente Rodrigo Dumas-Diniz, Rute Brites, Sofia Brissos, Laura Alho, Mário R. Simões e Carlos Fernandes da Silva, com 10 529 participantes e que foi publicado na revista internacional Psychology, Health & Medicine foi possível constatar que 49,2% dos participantes avaliaram o impacto psicológico da situação como moderado a severo, 11,7% relataram sintomas depressivos moderados a graves, 16,9% sintomas de ansiedade moderados a grave e 29,2% níveis de stresse moderados a graves.

Que aspetos podem impulsionar o aparecimento de sintomas e comportamentos desadaptativos?

Entre os principais desencadeadores de sintomas psicológicos e alterações comportamentais destacam-se, desde o início do surto, o desconhecimento face ao vírus, nomeadamente:

- As vias de transmissão do vírus;

- O período de incubação, isto é, o tempo que decorre entre o momento em que uma pessoa é infetada e o aparecimento dos primeiros sintomas;

- A taxa de mortalidade;

- Se é possível ser infetado uma segunda vez;

- Quanto tempo o vírus sobrevive nas superfícies e no ar;

- Necessidade de quarentena e por quanto tempo.

Soma-se a isto as consequências diretas que a pessoa pode sentir sobre a sua vida, tais como:

- Se o vírus afeta pessoas significativas, podendo resultar na sua morte, particularmente num momento em que os rituais fúnebres estavam condicionados;

- Qual o impacto nas finanças pessoais, considerando a possibilidade de desemprego de elementos do agregado familiar.

Podemos falar em fatores de risco associados à redução do bem-estar psicológico?

Sim, é possível. Os dinamarqueses Nina Vindegaard e Michael Eriksen Benros, através de uma revisão publicada na Brain, Behavior, and Immunity, em 2020, identificaram fatores de risco associados a uma maior vulnerabilidade ou bem-estar psicológico reduzido, na sequência da pandemia, concretamente:

- Fatores sociodemográficos, como viver sozinho, nível educacional reduzido, ser estudante ou não ter filhos;

- Antecedentes médicos, incluindo diagnóstico de perturbação psiquiátrica ou uso de substâncias, sendo sabido que a exposição a traumas está, igualmente, associada a um aumento do abuso de substâncias;

- Fatores psicológicos, incluindo baixa autoestima, aumento de stresse, baixa autoeficácia e conhecimentos limitados sobre a COVID-19.

Os fatores relacionados com o trabalho, associados a um aumento do risco de depressão e ansiedade, incluíram trabalhar como profissional na linha da frente e ter mais de 10 anos de experiência profissional. É também sabido que é necessário prestar mais atenção aos grupos vulneráveis, como os jovens, as pessoas idosas e os trabalhadores imigrantes.

Termos este conhecimento é fundamental porque, quando se lida com populações afetadas por uma pandemia, uma consideração importante é definir quem é mais suscetível de sofrer consequências psicológicas graves. Os indivíduos e as populações de risco elevado podem ser identificados preventivamente, de modo a evitar um agravamento do estado psicológico.

E a nossa personalidade influencia a forma como se responde a uma pandemia?

Dada a relevância da personalidade para comportamentos e crenças relacionados com a saúde, é esperado que estes traços influenciem a forma como se responde a uma pandemia. A influência na saúde pode-se manifestar através de mecanismos relacionados com a resposta à doença e a adesão a comportamentos promotores de saúde.

Por exemplo, indivíduos com tendência para experimentar estados emocionais negativos, estão frequentemente preocupados com o seu estado de saúde. Indivíduos que propendem para a prudência, meticulosidade, ponderação e rigor associam-se a comportamentos saudáveis.

Pessoas menos cooperativas e empáticas em situações sociais, que se sentem menos bem consigo próprias e com o mundo e que revelam menor abertura à experiência tendem mais frequentemente a evitar doenças transmissíveis, visto que os seus contactos sociais serão mais limitados. Por sua vez, pessoas com maior abertura à experiência conseguirão lidar com a incerteza durante um período de tempo longo e sustentado, comparativamente a pessoas mais rígidas e orientadas para rotinas.

Com base noutras questões de saúde e a finalidade de nos ajudar a melhor perceber o impacto da personalidade, se olharmos para outras características que são socialmente aversivas, como o narcisismo ou a psicopatia, podemos recuperar investigações em que os autores associaram o narcisismo ao risco de, conscientemente, predispor outros a contrair o Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) e a psicopatia a parceiros sexuais que, deliberadamente, enganaram os parceiros sexuais sobre o seu estado de seropositividade.

Não há assim dúvidas de que a nossa personalidade tem um impacto direto no nosso bem-estar e interage com as situações com que nos deparamos. Por isso, os traços de personalidade são cruciais para compreender e gerir a propagação da COVID-19 e de potenciais pandemias futuras.

Podemos afirmar que havia um mundo antes e há um mundo depois da COVID-19, mas do ressurgir desta crise, ficará para história a forma como os países e os governantes a enfrentaram, a nível social, económico, mas também a nível da saúde como um todo, isto é, sem ignorar a componente psicológica.

Se dúvidas existissem, a pandemia de COVID-19 tem apresentado desafios significativos à comunidade internacional de investigação, em diversas áreas, e também para a Psicologia e a Psiquiatria. Espera-se que este surto dê espaço e impulso para abordar questões críticas de uma forma colaborativa e numa perspetiva global, sobre a saúde mental, que exige um claro e imprescindível investimento.

Devido à necessidade de preencher uma lacuna existente na literatura nacional, chega ao mercado o livro intitulado “A Psicologia da Pandemia: Compreender e Enfrentar a COVID-19”, que tive o gosto de coordenar, em conjunto com Rodrigo Dumas-Diniz. Nesta obra, são destacadas questões incontornáveis de uma temática que inquieta, em maior ou menor grau, todo o cidadão, assim como são abordados tópicos urgentes e apontadas importantes orientações futuras que podem servir de aprendizagem na gestão desta e de novas pandemias.

Acompanhe o especial Saúde Mental

VEJA TAMBÉM: