Coronavírus

Covid-19 em Portugal. Risco de transmissão mais baixo da Europa e possível imunidade grupo em agosto

As conclusões da reunião no Infarmed que juntou políticos e especialistas.

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O Governo e o Presidente da República reuniram-se esta segunda-feira por videoconferência com os especialistas para avaliar a evolução da pandemia de covid-19 em Portugal.

Esta foi a 16.ª reunião entre políticos e peritos e decorreu antes de uma eventual renovação do estado de emergência.

Descida “muito expressiva” da incidência cumulativa

André Peralta Santos, da Direção-Geral da Saúde, começa por apontar que o país está, neste momento, numa tendência de descida “muito expressiva” no que diz respeito à incidência cumulativa, isto é, ao número de casos por 100 mil habitantes nos 14 dias anteriores: que neste momento se situa nos 322 casos por 100 mil habitantes.

O perito da DGS explica que todas as regiões portuguesas estão numa fase de descida e que Lisboa e Vale do Tejo continua a ser a região com uma incidência mais elevada – cerca de 480 casos por 100 mil habitantes – e com uma taxa de mortalidade superior à nacional.

Hospitalizações, cuidados intensivos e grupos etários: ponto de situação

Numa análise por grupo etário, André Peralta Santos explica que a tendência de descida também se mantém em todos os grupos, sendo que a maior incidência ocorre no grupo de “mais de 80 anos” que, apesar de tudo, se encontra com níveis equivalentes aos de novembro de 2020.

A consolidação da descida acontece também ao nível das hospitalizações, que se encontra, neste momento, com valores semelhantes aos registados a meio do mês de janeiro. Já a nível de internamentos em Unidades de Cuidados Intensivos, os valores rondam os do meio de janeiro.

Como está a transmissão de covid-19 em Portugal e qual foi o efeito do confinamento?

Sobre a evolução da incidência e transmissibilidade, Baltazar Nunes, do Instituto Ricardo Jorge, afirma que a estimativa para o R(t) é de 0,67, o valor mais baixo desde o início da pandemia e também o mais baixo da Europa, sublinhando a descida “muito acentuada” desde meados do mês de janeiro.

Para estes resultados, aponta os “pacotes de medidas” que têm vindo a ser implementados, sobretudo no que diz respeito ao fecho das escolas, responsável pela intensidade da redução em todas as regiões do país.

“Confinamento em janeiro e fevereiro teve efeitos bastante acentuados”, concluiu.

Excesso de mortalidade: covid-19 responsável por 64%

Sobre o excesso de mortalidade, o perito do Instituto Ricardo Jorge explica que a estimativa aponta que cerca de 64% deste excesso possa ser atribuído à covid-19.

As projeções para março

A nível de projeções, o especialista afirma que no final de março a taxa de incidência poderá encontrar-se abaixo dos 60 casos por 100 mil habitantes e que, a nível de hospitalizações, o número de internamentos deverá ficar abaixo de 200.

Estimativas apontam para a existência de 150 mil casos da variante do Reino Unido em Portugal

João Paulo Gomes, perito também do Instituto Ricardo Jorge, estimou esta segunda-feira na reunião do Infarmed que haja mais de 150 mil casos em Portugal da variante do Reino Unido. Sobre os recentes casos identificados da variante brasileira, de Manaus, explica que fazem parte de uma única cadeia de transmissão.

Sobre a taxa de prevalência da variante do Reino Unido em Portugal – a mais expressiva no país – encontra-se entre quatro e 10%, observando-se uma manutenção dos valores das últimas semanas e não uma subida, como seria de esperar.

Relativamente à variante sul-africana, revela que se mantêm os quatro casos, não tendo sido identificado mais nenhum.

O novo normal da Medicina Intensiva

João Gouveia, coordenador da resposta em Medicina Intensiva, avisa que a situação ainda é muito frágil e que o objetivo é reduzir para menos de 242 os doentes covid internados em cuidados intensivos. Só assim se conseguirá dar resposta a todas as situações covid e não covid, defende.

O perito estima que, na terceira semana de março, o número de doentes internados com covid-19 em unidades de cuidados intensivos possa ser de 245.

No que apelida de “novo normal” da Medicina Intensiva, aponta ainda como objetivo que a distribuição de camas seja feita da seguinte forma: 285 camas UCI para doentes covid-19 e 629 camas UCI para a atividade normal.

Portugal pode alcançar imunidade de grupo em agosto

O coordenador do plano de vacinação disse esta segunda-feira, na reunião entre políticos e especialistas no Infarmed, que a disponibilidade de vacinas contra a covid-19 melhorou e que isso fez com que fosse alterada a previsão para se atingir a imunidade de grupo em Portugal.

"Pode passar do fim do verão para meados de agosto ou o início de agosto", afirmou Henrique Gouveia e Melo, advertindo, no entanto, que são apenas "expectativas que ainda têm de se confirmar".

O coordenador da task force referiu ainda que no segundo trimestre do ano haverá uma concentração de vacinas "suficiente para aumentar a velocidade da vacinação para cerca de 100 mil vacinas por dia, o que fará com que se tenha de pensar em modelos alternativos aos centros de saúde, para que o processo decorra sem problemas".

Até ao momento 4,5% da população portuguesa já recebeu a primeira dose da vacina e 2,7% a segunda.

Uma “janela de esperança”

No final da reunião, o Presidente da República agradeceu a todos os peritos presentes e às restantes dezenas de profissionais que trabalham no estudo da evolução da pandemia, sublinhando a importância da evidência científica para travar a transmissão da covid-19.

Marcelo Rebelo de Sousa afirmou também que os dados apresentados esta segunda-feira são uma “janela de esperança” no combate à pandemia.

Tudo depende “de cada um de nós e das medidas”

Em conferência de imprensa após a reunião, a ministra da Saúde, Marta Temido, aproveitou para reunir as principais conclusões que advieram deste encontro do Infarmed.

  • Reafirmação da tendência de descida da incidência;

  • Índice de transmissibilidade mais baixo da Europa, mas que ainda está a um nível elevado;

  • Previsão de ocupação de menos de 300 camas em Unidades de Cuidados Intensivos covid-19 no final de março;

Marta Temido lembra que nenhum destes é um dado adquirido e que tudo depende “de cada um de nós e das medidas”. Sublinha ainda a importância da manutenção do acompanhamento ao Plano Nacional de Vacinação como “fundamental no caminho da imunidade” e reforça a preocupação com as novas variantes.