Coronavírus

Peste, a mais negra das pandemias

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Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

Falar sobre a peste nos dias de hoje pode parecer redundante ou até pouco interessante. Todos sabemos relativamente bem o que nos conta a história, mas há sempre algo a descobrir. Principalmente, quando a história ainda se faz no presente. Falámos de três pandemias de peste que aconteceram há centenas de anos, mas só há pouco tempo se sequenciou o genoma da bactéria que dá origem à doença. E que bactéria é esta? O que nos diz a mais recente investigação?

Especial Coronavírus

Das três pandemias de peste, a mais mortífera foi a peste negra. Trazida da Ásia, na Idade Média, através das rotas da Seda - rota comercial entre a China e o Mediterrâneo - , estima-se que tenha dizimado cerca de um terço da população. Esta pandemia durou cerca de 100 anos: "é pensar que durante duas gerações as pessoas cresciam, tinham filhos, morriam e os filhos iam continuar a viver com a peste", explica Jaime Mota, professor da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa.

Houve uma primeira pandemia de peste, a chamada Praga do Justiniano, entre os anos 541 e 544, que também causou uma grande devastação. Contudo, na altura, existia menos movimentação da população.

A mais recente pandemia de peste aconteceu já entre o final do século XIV e o início do século XX, numa época em que, apesar de tudo, já havia mais conhecimento científico. Aliás, esta terceira pandemia levou à descoberta do microorganismo que está na sua origem: a bactéria Yersinia Pestis, pelo microbiologista suíço, Yersin.

A peste bubónica, a septicémica e a pneumónica

A peste pode desenvolver-se de três formas distintas no organismo. A bubónica, forma mais conhecida da peste, desenvolve-se nos gânglios linfáticos como, por exemplo, por baixo das axilas e junto ao pescoço.

As outras duas formas podem ser desencadeadas pela primeira. Ou seja, a peste pode passar para a corrente sanguínea - peste septicémica - ou pode chegar aos pulmões - peste pneumónica, sendo esta a mais perigosa de todas.

Yersinia Pestis: que bactéria é esta?

A grande curiosidade em relação a esta bactéria é o facto de ser evolutivamente muito parecida a uma outra: a yersinia pseudotuberculosis, que causa infeções gastrointestinais, por norma leves.

Segundo o professor Jaime Mota, há uma pergunta muito simples e para a qual ainda não existe uma resposta clara. Sendo a yersinia pestis tão parecida com a yersinia pseudotuberculosis, porque é que num caso existe uma infeção letal e noutro caso uma infeção leve? Alguns genes e proteínas podem estar na origem da diferença, mas ainda não se sabe exatamente porque é que a yersinia pestis é tão virulenta em relação à sua parente.

"A bactéria tem um conjunto a que chamamos de fatores de virulência: proteínas e lípidos, com que manipula o sistema imunitário do hospedeiro e em alguns casos danifica as células. E à conta disso consegue multiplicar-se nos nossos tecidos", explicou numa entrevista à SIC Notícias.

Sobre a forma como manipula o hospedeiro, há muitas coisas ainda que permanecem por esclarecer. Jaime Mota explica que a bactéria injeta toxinas nas células do hospedeiro, podendo afetar o seu funcionamento. Para além disso, a maioria das bactérias têm na sua superfície um açúcar - um lípido açucarado - que é reconhecido pelo sistema imunológico.

"A yersinia pestis desenvolveu-se de forma a que a carapaça lipídica açucarada não possa ser detetada pelo nosso sistema imunológico. Para além disso, possui uma enzima que vai ajudá-la a disseminar-se nos tecidos", afirmou.

Evolução dos cuidados de saúde e higiene

Como podemos imaginar, os cuidados de higiene e saúde pública na Idade Média eram quase nulos em relação aos que existem hoje. Isto propiciava não só o aparecimento de doenças, como também a sua disseminação. Foi o aparecimento da peste que fez com que as autoridades olhassem de forma mais crítica para as zonas urbanas, onde eram acumulados lixo e dejetos de humanos e animais.

Segundo se sabe, as primeiras medidas a serem adotadas dizem respeito à limpeza das ruas, à remoção do lixo, dejetos e águas acumuladas. Foram também tomadas medidas de isolamento para travar o contágio.

Antibióticos vs antivirais

Questionado sobre a possibilidade de existir uma nova pandemia de peste, Jaime Mota afastou o cenário. "Diria que é muito improvável. Todas as pandemias de peste que levaram a milhões de mortes aconteceram numa época pré-antibiótico. Com a existência dos antibióticos, a partir do momento que existe um caso, é rapidamente neutralizado", esclareceu.

O mesmo não parece acontecer com os antivirais. Quando surgiu a pandemia de covid-19, vários países tentaram admnistrar antivirais nos doentes, mas alguns não faziam qualquer efeito.

Segundo Jaime Mota, isto acontece porque os antevirais são, de alguma forma, mais específicos para cada vírus, enquanto os antibióticos têm uma espetro maior.

"A principal diferença, pensando nos dias de hoje, é que uma pandemia causada por uma bactéria, se não for uma bactéria que seja multirresistente, pode ser trada com antibiótico, é muito mais fácil de controlar. No caso de uma pandemia causada por um vírus, os antibióticos são ineficazes", sublinhou.

Estaremos mais avançados a nível de antibióticos do que antivirais?

Reagir ao desconhecido

Apesar de as pandemias de peste terem acontecido há centenas de anos, em que as condições de higiene, saúde e tecnológicas eram muito diferentes das que temos hoje, há um um fator que se sobrepõe nas duas: a reação das pessoas a uma pandemia, a algo que não compreendem, ao desconhecido.

Questionado sobre a lição que tira destas duas pandemias, Jaime Mota respondeu:

"É natural que exista algum desconhecimento sobre as infeções, sobre a doença, e que isso leve a alguns ziguezagues sobre a forma como proceder seja da comunidade cientifica, seja das autoridades de saúde. Mas a principal lição é que estamos muito melhor preparados hoje."

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