Coronavírus

Olhar para uma das pandemias mais devastadoras da história para perceber a que vivemos

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Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

As pandemias de gripe espanhola e de covid-19 têm sido alvo de comparações desde que o novo vírus apareceu em Wuhan, na China. Mais de cem anos separam uma da outra e, apesar das aparentes semelhanças, existem muitas diferenças entre elas. Revisitámos o passado, com um olhar sobre o presente e o futuro.

Especial Coronavírus

A pandemia de gripe espanhola foi uma das mais devastadoras da história da humanidade. Estima-se que, em apenas 24 semanas tenha matado mais pessoas do que a SIDA ao longo de 24 anos.

Ao contrário do que o nome indica, a gripe espanhola não surgiu em Espanha. Vários investigadores apontam a sua origem para um campo militar no estado dos Kansas, nos Estados Unidos, em 1918. Começou por ser conhecida como gripe pneumónica, mas ficou popularizada como gripe espanhola, porque era de Espanha que vinham notícias mais avançadas sobre o vírus.

Pouco mais de cem anos depois, a nossa memória coletiva leva-nos a revisitar este momento trágico na história, precisamente na mesma altura em que vivemos um.

Quando a covid-19 surgiu em Wuhan, na China, muitas comparações foram feitas com a pandemia de gripe espanhola. Mas estaremos certos ao fazer este paralelo? A gripe e os coronavírus têm realmente algumas semelhanças aparentes: os sintomas que provocam e o facto de ambos serem vírus respiratórios.

Segundo o investigador do Instituto Medicina Molecular, Miguel Castanho, existe outro fator passível de comparação: o potencial pandémico da covid-19, que poderia fazer em Portugal o mesmo número de vítimas da gripe espanhola não fosse o conhecimento científico que possuímos, bem como a experiência de combate a pandemias.

Porém, estas semelhanças podem criar a ilusão de que estamos perante duas pandemias com caraterísticas similares, o que não é verdade. As diferenças que as separam são maiores do que as possíveis pontes que possam existir entre elas, tal como explica Miguel Castanho.

Gripe espanhola matou mais jovens adultos

Enquanto a pandemia de covid-19 apresenta uma maior severidade nas faixas etárias mais avançadas, a gripe espanhola matou mais jovens adultos. O fenómeno continua ainda sem uma explicação concreta, apesar de vários investigadores tentarem perceber como atuava o vírus nas células em 1918.

Houve uma tentativa de ir atrás e, numa expedição ao Alaska, foram recuperados alguns corpos que estavam conservados, de onde conseguiram retirar algumas amostras de tecido pulmonar.

"O que correu mal é que houve uma pequena variação do vírus num vírus que era de uma influenza das aves. Tornou-se apto para infetar células humanas, criou uma nova variantes de vírus que causava uma doença com aquelas caraterísticas", apontou o investigador.

O Sars-cov-2 passou dos morcegos para os humanos o que, segundo Miguel Castanho, causou um grande espanto. No entanto, explica que os morcegos são mamíferos e que no influenza havia variantes que passavam das aves para os humanos.

Esta variação que hoje é conhecida, num "detalhe minúsculo mas num ponto crítico do vírus", pode explicar o facto de o vírus ter sido muito mais severo na segunda vaga do que na primeira.

Travar o contágio

Tal como acontece nos dias de hoje, as grandes armas para travar o contágio por gripe espanhola foram o isolamento e o uso de máscara. Quando surgiu a gripe espanhola, a grande doença da altura era o sarampo - uma doença extremamente contagiosa, que acabou por servir de exemplo em relação à prevenção do contágio.

"Numa doença tão contagiosa como o sarampo a única forma de prevenir o contágio é isolar as pessoas, com a febre tifóide era a mesma coisa. De alguma maneira, já se sabia na altura que o isolamento era a grande forma de travar o contágio", refere o investigador.

Em relação ao uso de máscara, é importante perceber que as máscaras utilizadas entre 1918 e 1919 eram muito diferentes daquelas que hoje temos no mercado. Não existiam, por exemplo, máscaras descartáveis, nem tão sofisticadas.

Atualmente, as ferramentas que temos ao nosso dispor são as mesmas que tínhamos há cem anos. Será que podíamos estar mais evoluídos neste aspeto?

Lições a tirar

A gripe espanhola caiu no esquecimento. Alguns momentos da nossa história recente podem ajudar a explicar este fenómeno. O vírus surgiu no fim da I Guerra Mundial e foi sucedido pelo efeito também devastador da II Guerra Mundial - dois eventos que temos presentes na nossa memória coletiva. Ficou perdido algures nesses anos tão trágicos, que custaram a vida de milhões e milhões de pessoas.

Outra das razões que pode ter levado a uma desatenção em relação à gripe espanhola foi o rápido desenvolvimento científico e tecnológico, sustenta Miguel Castanho. Ao longo dos anos, houve várias ameaças de pandemias de gripe, mas foram todas contidas devido à vigilância apertada.

Apesar desses avanços, nada nos preparou para lidar com uma pandemia de coronavírus.

"Fomos à Lua e, de alguma forma, não conseguimos lidar de forma sofisticada com o novo coronavírus. Uma das explicações é que fomos vítimas do nosso próprio sucesso, isto é, algumas vacinas foram bem sucedidas, como a do sarampo, o desenvolvimento de antibitóticos foi tão bem sucedido ao ponto de nos esquecermos das doenças infetocontagiosas", afirmou.

Olhar sobre o futuro

"É preciso retomar a investigação sobre as doenças infetocontagiosas", sublinha Miguel Castanho, acrescentando que podemos enfrentar variações de coronavírus no futuro. E, apesar do grande mediatismo em torno das vacinas, é preciso olhar também para outras soluções, como o desenvolvimento de medicamentos e a capacidade de diagnosticar a doença.

"Na investigação, não devemos procurar obsessivamente uma solução única. Devemos investir num leque variado de abordagens que nos permitam um ataque múltiplo ao mesmo problema", afirmou o investigador.

A pandemia esquecida

Recuperámos a Reportagem Especial "A pandemia esquecida" da autoria do jornalista Luís Manso, com imagem de Rafael Homem, edição de imagem de Miguel Pinheiro, grafismo de Isabel Cruz, produção de Ana Marisa Silva e Sérgia Carneiro e coordenação de Marta Brito dos Reis.