Coronavírus

Medo, solidão e falta de afetos: como a pandemia lhes mudou a vida

Rita Rogado

Rita Rogado

Jornalista

No Dia Internacional do Idoso, contamos a história de duas pessoas que têm em comum a solidão. A de Zulmira Marques, de 92 anos. Há 6 meses era alegre e passeava com as amigas quase todos os dias. Depois veio a pandemia e ficou “completamente sozinha” durante três meses. Agora não quer sair de casa. Tem vários medos. A outra é a de Maria do Céu. Morreu em junho, aos 87 anos. Os últimos dias de vida foram passados numa cama de hospital. Não pôde despedir-se das duas filhas.

Especial Coronavírus

QUEM É ZULMIRA MARQUES?

Lá fora, estava uma tarde de sol, mas a D. Zulmira não tinha vontade de sair de casa. Já passava das 15h30 quando começou a falar com a SIC Notícias. Com distância, como a pandemia obriga. Almoçava sozinha o que a filha lhe tinha levado. Sorriu e disse que era um prazer conversar. Pôs o prato de lado. "Daqui a pouco já como, que agora estamos a falar. Tenho tempo para almoçar", afirmou. Está sozinha em casa todos os dias. Sobram-lhe dois filhos, netos e um bisneto, mas "cada um tem a sua vida". Os amigos já são poucos. Foram morrendo. Afinal, Zulmira Marques tem 92 anos.

Vê a luz do dia pela janela ou quando os filhos a convencem a sair de casa. Há seis meses era uma “pessoa muito alegre”. É assim que se descreve. “Antes da pandemia ia para todo o lado com as minhas amigas. Tinha vontade, apanhava o autocarro e ia. Fazia tudo, cantava, dançava, não parava. Agora, as pernas não deixam”, contou, em entrevista à SIC Notícias. A filha, Paula Charneira, descreveu a mãe como uma pessoa ativa, “para a frente” e com uma cabeça muito lúcida. Até há seis meses.

Zulmira na sua sala, onde passa a maioria do tempo, no dia em que falou com a SIC Notícias.

Zulmira na sua sala, onde passa a maioria do tempo, no dia em que falou com a SIC Notícias.

Zulmira Marques estava quase sempre na rua. De manhã, ia ao café ao lado de casa tomar o pequeno-almoço e conversar com as amigas. Voltava a casa para almoçar. Umas vezes fazia a comida, outras comprava no restaurante da rua. À tarde tinha um ritual que criou com o marido, quando ainda era vivo: lanchar no café.

"Tem sido uma mulher saudável. Tem apenas a tensão e o colesterol um bocadinho altos. Nunca olhei para a minha mãe como uma pessoa de 92 anos, agora olho. Acho que está a despedir-se”, afirmou a filha. Deixou de ser uma pessoa alegre e com vontade de sair de casa.

“Quando perdemos a nossa maneira de ser, quando queremos andar com as amigas e já não podemos, já não estamos cá a fazer nada”, disse a mulher de 92 anos.

A PANDEMIA MUDOU-LHE A VIDA

“Não queria ser velha”, disse Zulmira Marques. Levou as mãos à cara, a esconder-se com vergonha do que afirmou. “Ando muito negativa desde que a pandemia começou”, acrescentou.

Zulmira esteve sozinha em casa durante 3 meses. Teve o encontro anual de amigas no Dia Internacional da Mulher, dia 8 de março, que é organizado há 30 anos pela própria. Quatro dias depois, quando o coronavírus chegou em força a Portugal, ficou num “profundo confinamento, completamente sozinha”. “Eu fazia-lhe as compras na farmácia e no supermercado e dava-lhe tudo pela janela, sempre com a janela meio aberta, meio fechada”, contou a filha. Agora Paula já entra em casa da mãe. Está em teletrabalho, o que reduz a possibilidade de estar infetada, mas tenta manter a distância. Foi fazendo testes à Covid-19 para garantir que podia estar perto da mãe. Usa máscara e desinfeta as mãos com regularidade.

Saco de compras com bens alimentares que Paula entregou à mãe, Zulmira, e máscaras e gel desinfetante que usa para entrar em casa da mãe.

Saco de compras com bens alimentares que Paula entregou à mãe, Zulmira, e máscaras e gel desinfetante que usa para entrar em casa da mãe.

“Eu não quero votar quando forem as eleições presidenciais. Alguma vez atravesso a estrada? Tenho medo de cair. A cabeça está esperta mas as pernas não. Deixa-me estar sossegada, tenho medo. E se caio?”.

Zulmira disse-o à filha. Paula tentou convencê-la, devido à importância de votar. Sempre o fez. Ficaram de combinar “lá para a frente, quando chegar a altura”.

A filha de Zulmira olha para trás e vê as diferenças. “A pandemia trouxe-lhe fraca mobilidade. Ela era uma pessoa que andava bem, agora arrasta um bocadinho os pés e desequilibra-se. Tem medo de ir sozinha a qualquer lado sem dar o braço porque tem medo de cair. Só sai com a família à rua por causa desse medo”, realçou.

Zulmira Marques passa os dias deitada na cama ou no sofá a ver televisão. “Gosto muito de ver os canais todos, de notícias e dos jogos do Benfica. Vejo televisão todo o dia”, contou. Faz a cama quando acorda e a higiene pessoal. Ainda consegue fazer sozinha a cama de lavado, disse-o várias vezes ao longo da entrevista. Deita-se por volta da meia noite e acorda às 9h00. Levanta os estores para as vizinhas saberem que acordou. “Estão sempre alerta. Tenho uma vizinha que está sempre a bater aqui à porta para saber como estou. Às vezes até tenho medo, já lhe disse que temos de combinar um toque para eu saber que é ela”, disse. É assim que Zulmira, conhecida como uma pessoa alegre e “cheia de vida”, passa os dias há meio ano. Da cama para o sofá, do sofá para a cozinha e da cozinha para o quarto. Poucos metros para andar, solidão e uma senhora de 92 anos.

Levantou-se da mesa da cozinha para ir mostrar a casa arrumada. Diz que já não faz a limpeza a fundo porque já não consegue, mas a casa está sempre arrumada. Foi agarrada às paredes. As pernas tremiam. O medo foi uma das palavras mais ditas pela D. Zulmira em cerca de uma hora de conversa. Medo de cair e medo de morrer.

“Tenho medo. Estou mais triste agora porque estou em casa. Agora estou um bocadinho esquecida. É muito triste não saber onde tenho as coisas”, afirmou. Também falou do marido muitas vezes, mesmo quando a conversa era outra. Afinal, 70 anos de vida foram partilhados com ele.

“ÀS VEZES OLHO PARA O LADO E ACHO QUE ELE AINDA CÁ ESTÁ”

Zulmira Marques e José Charneira namoraram 6 anos. Depois seguiram-se 64 anos de casamento e dois filhos. Há um ano e meio que Zulmira está viúva. “Sinto muito a falta dele. Sempre nos demos bem, a separação é muito triste. Morrem os pais, que não nos saem do coração, mas chegar a casa e não ver mais ninguém é muito triste. Perder a companhia é a coisa mais triste do mundo”, desabafou. Diz que tem dias muito difíceis.

Zulmira Marques e José Charneira no dia do casamento, em 1954.

Zulmira Marques e José Charneira no dia do casamento, em 1954.

Foi a cuidadora do marido até ele morrer, em maio do ano passado. José esteve doente muitos anos, com um problema na bexiga e Alzheimer. Mas foi uma queda em casa que o levou para o hospital. Ficou internado alguns meses antes de morrer. Quando morreu, Zulmira ficou em choque mas “bem”, descreveu a filha do casal. “A minha mãe estava muito cansada, foram muitas noites sem dormir. Com o tempo começou a ter a vidinha dela. Não quis ir para casa de ninguém, nem para um lar”, contou.

Em junho, depois de três meses sozinha em casa, começaram os alertas. Paula sentiu a mãe muito triste e chorona, “à beira de uma depressão”. Nunca foi assim e, por isso, foi vista por uma médica. A profissional acha que Zulmira está a fazer o luto da morte do marido agora. Na noite anterior à entrevista, chorou durante horas. “Estava com a telha”, como contou à filha, e só via escuridão.

“Diz que tem medo de estar sozinha e morrer e que já devia ter morrido há muito tempo, logo a seguir ao meu pai”, contou Paula Charneira à SIC Notícias. A voz era de angústia. Paula diz que a mãe nunca foi uma pessoa que falasse na morte: “A vida dela era conviver, passear e conversar com as amigas”.

Conta ainda que Zulmira esqueceu-se de tomar os comprimidos durante uma semana, quando a filha foi de férias. Toma uns quantos por dia: para o colesterol, tensão, circulação sanguínea e cérebro. Quando Paula voltou, encontrou uma mãe mais esquecida e repetitiva. Já não consegue controlar o dinheiro como fazia “religiosamente” há uns meses, nem organizar os comprimidos que tem de tomar. É Paula que o faz todos os dias.

“Ultimamente tenho sentido a minha mãe a desistir. Sinto que está a desistir dela. Tenho aquela sensação de que está a despedir-se, a querer partir”, desabafou.

QUEM ERA MARIA DO CÉU?

Esta é a história dos último dias de vida de Maria do Céu. Tinha 87 anos. Era utente de “O Lar do Élio”, em Azeitão, em Setúbal, há 6 anos. Foi lá que se tornou beijoqueira, contou a filha, Marília. No lar sentia-se em casa, entre família. As duas filhas iam buscá-la aos fins-de-semana para planos em família. Tentavam que a mãe tivesse uma vida como se estivesse ainda a viver em casa. Maria do Céu escolhia. Iam ao cabeleireiro, almoçavam, iam passear a jardins e ver o mar. Tudo o que ela adorava. Gostava de se “pôr bonita”. O primeiro fim-de-semana de março foi passado em família. Não sabiam que seria o último.

Maria do Céu a pintar um desenho no lar.

Maria do Céu a pintar um desenho no lar.

Maria do Céu teve um tumor da cabeça há cerca de sete anos, antes de ir para o lar. Apareceu-lhe Parkinson e, desde aí, o estado de saúde foi piorando. Nos últimos meses, “estava uma pessoa diferente”, segundo a filha, porque estava a piorar. Tinha infeções respiratórias com regularidade. Mandava beijinhos, conhecia as filhas quando as via e ficava contente, mas já tinha dificuldade em falar e em ver.

PANDEMIA (FELIZ) NUM LAR

Marília Agapito e a irmã passaram a ver a mãe apenas por videochamada, a partir de meados de março, quando foi decretado o estado de emergência no país devido à pandemia de covid-19. Uma ou duas vezes por semana o responsável por “O Lar do Élio” ligava à família dos utentes. No Facebook, foi publicando fotografias do que faziam com os idosos.

“O lar fez as atividades como se não existisse nenhum problema. Têm o hábito de fazer um bolo quando alguém faz anos. Mesmo em cadeiras de rodas, fazem eles próprios o bolo: um mexe e o outro parte os ovos. Fazem uma prenda para o aniversariante. Na Páscoa, fizeram ovos e prendas e enfeitaram o lar. Fizeram sempre ginástica. Fomos acompanhando tudo no Facebook”, contou Marília, à SIC Notícias.

Fazem tudo o que faziam antes. Mas com máscara e sem afetos.

Maria do Céu a fazer um bolo no lar.

Maria do Céu a fazer um bolo no lar.

Marília e a irmã só voltaram a estar com a mãe em maio, quando foi levantada a restrição às visitas aos lares. Iam uma vez por semana, com marcação. “Pudemos ir as duas filhas, mas excepcionalmente porque as visitas eram ao ar livre no terraço”, acrescentou. De máscaras, a temperatura era medida à entrada e as mãos eram desinfetadas. Tinham 50 minutos para estar com a mãe. O toque era proibido. Maria do Céu e as duas filhas ficavam sentadas em cadeiras a dois metros de distância.

“Era complicado para pessoa que não vê bem, não ouve bem e tem alguma demência, que era o caso da minha mãe. A máscara também dificultava imenso a comunicação”, explicou Marília Agapito.

Foram visitar a mãe durante dois fins-de-semana, ao terceiro Maria do Céu desenvolveu uma pneumonia e teve de ser internada. A saúde estava frágil e o organismo já não reagia.

FIM DA LINHA SEM AFETOS

Maria do Céu esteve internada no Hospital do Barreiro durante uma semana e meia. Sem visitas porque não eram permitidas por causa da pandemia. “Ligávamos para o hospital todos os dias. Era muito difícil contactar com alguém. Deixávamos o nosso número e depois ligavam-nos para dar informações. Mas nunca conseguimos falar com ela. Não houve qualquer contacto visual, nem por telefone, com pessoas conhecidas”, contou a filha. Esteve numa cama de hospital, com um cortinado corrido de um lado ao outro, sem nada, a olhar para o teto. É assim que Marília descreve o internamento da mãe. “24 horas parecem 48”, realçou.

A idosa teve alta dias depois. Voltou para o lar numa segunda-feira. Foi a última vez que as filhas a viram. Teve de ficar em isolamento na instituição por ter vindo do hospital. Piorou dois dias depois e voltou a ser internada. Morreu na sexta-feira, dia 19 de junho.

“É triste uma pessoa estar afastada no fim da vida das pessoas que mais amava. Esteve privada de mim e da minha irmã e das pessoas do lar que eram uma segunda família. A última semana foi de um completo desprezo de afetos”, desabafou a filha.

Nas cerimónias fúnebres, o caixão não foi aberto. Esteve uma hora na casa mortuária, antes de seguir para o cemitério. Só puderam entrar cinco pessoas de cada vez, com máscara e distância de segurança. “Não pude despedir-me dela”, contou.

1 DE OUTUBRO, DIA INTERNACIONAL DO IDOSO

A Covid-19 é o dia-a-dia das pessoas de todo o mundo há nove meses. A doença atravessa fronteiras, oceanos e não olha à idade. Mas quando se fala na idade e no coronavírus, os idosos são a preocupação. São um grupo de risco. Este ano, o 30º Dia Internacional do Idoso é dedicado à área da saúde.

Este dia foi instituído pelas Nações Unidas a 14 de dezembro de 1990 para sensibilizar a sociedade para questões do envelhecimento e a necessidade de proteger e cuidar dos idosos. Para que servem os Dias Internacionais? De acordo com as Nações Unidas, são ocasiões para educar sobre questões preocupantes, criar atividade política e recursos para resolver problemas globais e ainda celebrar e reforçar as conquistas da humanidade.

“A pandemia está a causar medo e sofrimento aos idosos em todo o mundo. Além do impacto imediato na saúde, coloca os idosos em maior risco de pobreza, discriminação e isolamento. É provável que tenha um impacto devastador nos idosos dos países em desenvolvimento”, escreveu o Secretário-Geral da ONU, António Guterres.

Apresentar propostas para diminuir as disparidades na saúde entre os idosos nos países desenvolvidos e em desenvolvimento é um dos objetivos do Dia Internacional do Idoso de 2020. Este dia pretende destacar o papel dos profissionais de saúde no bem-estar dos idosos. O reconhecimento especial vai para as enfermeiras que, segundo a ONU, são subestimadas e contribuem para a melhoria da saúde dos idosos.

A composição da população mundial mudou drasticamente em seis décadas. A esperança média de vida aumentou de 46 anos para 68, de 1950 para 2010. No ano passado, havia 703 milhões de idosos no mundo: 261 só no Leste e Sudeste Asiático, seguido pela Europa e pela América do Norte. As previsões apontam para que o número idosos duplique nos próximos 30 anos.