Coronavírus

Regresso às aulas: o papel do professor na nova era do ensino

(Arquivo)

Ana Isabel Pinto

Edição de Imagem

Depois de três meses com as escolas fechadas, professores e alunos voltaram às salas de aula para começar o novo ano letivo. Na memória está a experiência do ensino à distância, que apanhou todos de surpresa e obrigou a uma reorganização repentina do sistema de ensino.

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A campainha toca. A correria dos alunos para entrar nas salas de aula, a disposição das carteiras, o quadro, o professor… Quem ainda se lembra do seu professor preferido? Até há bem pouco tempo, a escola mantinha-se quase igual às memórias que guardam os que por lá passaram.

Este ano há novas regras para aprender, mas uma coisa permanece igual: o papel dos professores na construção do futuro da sociedade.

Ser professor “é ser um transmissor, um canal, digamos assim, de conhecimento”, explica Isabel Parreira, professora de Inglês no Agrupamento de Escolas Braamcamp Freire, na Pontinha, referindo-se também às questões que marcam a atualidade e que não fazem parte do currículo da disciplina.

Para Conceição Santos, professora da área agrícola na Escola Profissional Agrícola D. Dinis, em Paiã, Pontinha, uma professora é “mãe, psicóloga, madrinha, tia, avó”: “Se, por acaso, notamos que eles [os alunos] não estão bem, no final da aula dizemos ‘olhe, se precisar de falar comigo, estou disponível’. E às vezes não é no momento, mas um dia ou dois depois vêm falar connosco sobre qualquer coisa que o esteja a preocupar”, conta.

"O aluno ligou-me a pedir por favor se eu podia ir a casa dele"

É nas escolas que os alunos passam a maior parte do dia e a relação que criam com os professores é muitas vezes um importante fator para estimular a aprendizagem. Uma ligação que tem impacto na vida dos alunos e que chega a ultrapassar a sala de aula.

Bruno Santos, professor de Educação Física e diretor do Agrupamento de Escolas Dr. Azevedo Neves, na Amadora, recorda o dia em que um aluno lhe ligou a pedir ajuda: “Era Sexta-feira Santa, eram mais ou menos dez e meia da noite, eu estava em casa e o aluno ligou-me a pedir por favor se eu podia ir a casa dele. Eu naquela altura morava em Odivelas e ele morava em Xabregas, então eu desloquei-me. O aluno estava numa situação de grande dificuldade”, conta referindo que se tratava de uma situação de tensão com a família.

Resolvido o conflito, Bruno pergunto ao aluno o porquê de o ter escolhido nesta situação e “ele disse: ‘Foi a primeira pessoa que me veio à mente e sabia que me ia conseguir introduzir um fator de segurança e de racionalidade, ou seja era a única pessoa que me podia acalmar e conseguir com que neste momento muito forte, muito efervescente, eu pudesse ter uma comunicação bastante mais sólida’”. “Foi um dos momentos que me alimentou um pouco o espírito no sentido de dizer quanto importante é o papel de um professor”, acrescenta o docente.

“Nós professores somos tão pouco entendidos, estamos tão sozinhos"

Nem sempre o papel do professor é reconhecido e “desde os anos 70 do século passado até hoje, houve uma degradação da imagem social do professor”, explica José Lagarto, especializado em Ciências da Educação e professor na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. As razões são diversas: "Razões carácter social, do próprio aumento de escolaridade das pessoas”, prossegue o docente.

Conceição Santos admite o cansaço e a desmotivação perante uma profissão da qual já gostou muito. “Nós professores somos tão pouco entendidos, estamos tão sozinhos, somos tão – como é que eu hei de dizer… – desvalorizados que é preciso ter coragem para se embarcar numa profissão de professor. Nós somos destratados por toda a gente, nós estamos com a cabeça a prémio sempre”, comenta a professora do ensino profissional reforçando que o professor é “uma peça importante na educação das pessoas” e que “ninguém chega a lado nenhum sem ser com um professor.

A pandemia pode ser responsável pelo melhoramento da imagem social do professor, avança José Lagarto. Com a pandemia, “a sala de aula entrou dentro das famílias, dentro da casa. Muitos pais não se terão apercebido que o papel do professor hoje é muito importante e a forma como quer o Estudo em Casa, quer a forma como os professores e alunos interagiam através dos meios telemáticos, através da internet e através dos softwares que há de comunicação” permitia ao pais estar “dentro da cena”, e isso permite perceber “como é que o professor, dentro da sala de aula efetivamente funciona. E muitos pais já não se lembram disso”.

MANUEL DE ALMEIDA

A pandemia e a nova forma de ensinar

Era sexta-feira, 13 de março, quando António Costa anunciou que as férias da Páscoa iam ser antecipadas de forma a fechar as escolas e evitar a propagação da covid-19. “Manda o princípio da prudência que determinemos desde já, e com efeitos a partir da próxima segunda-feira, a suspensão de todas as atividades letivas presenciais até ao período das férias da Páscoa”, anunciou o primeiro-ministro.

Precisamente na segunda-feira seguinte, começava uma nova fase do ensino em Portugal. Em pouco tempo se produziu o Estudo em Casa, levando a escola até casa através da televisão, e cada agrupamento organizou-se de forma a manter o contacto regular entre os professores e os alunos, fosse através de plataformas digitais, sms ou até deixando sebentas na portaria para os alunos irem buscar. “Foi mudar completamente a nossa forma de estar porque o centro da atividade docente neste agrupamento [que está inserido num programa Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP)] situa-se na relação direta”, conta Bruno Santos. “Perdendo isso, tivemos de reconfigurar toda uma nova forma de ação em que o primeiro grande desafio foi procurar recuperar alunos”, que muitas vezes não tinham forma de participar nas atividades síncronas.

A escola saiu dos edifícios criados para o efeito e passou para a casa, mas o acesso não foi igual para todos. Havia alunos que não tinham acesso a um computador ou ligação à internet e “o professor teve de se desmultiplicar em mais vozes, em mais impulsos, em mais tentativas de encontro do aluno para conseguir tentar continuar a fazer escola”, prossegue o diretor do Agrupamento de Escolas Dr. Azevedo Neves.

Mesmo nos casos onde era possível a realização de aulas à distância, a ligação entre quem ensina e quem aprende não é igual. “Não há nada que substitua o ensino presencial, é sempre outra coisa. Porque há calor humano, é uma zona com calor humano também. Quando se está com um monitor à frente, muitas vezes não se consegue perceber – aliás não se consegue mesmo perceber por vezes – se o aluno estão de facto a acompanhar ou não”, desabafa Isabel Figueiredo Parreira.

Na escola profissional, onde as disciplinas práticas são a principal componente letiva, o ensino à distância tornou-se um aspeto ainda mais complicado, levando alguns alunos a perder a motivação. “Foi terrível. Terrível, mesmo”, lembra Conceição Santos, “primeiro, os alunos que estão naquela escola, e neste tipo de escolas [profissionais], gostam da parte de mexer e de estar na rua.

De repente ficar enfiados dentro do seu quarto, sentados na sua secretária – às vezes sem secretária – mas sentados à frente de um monitor e todas as aulas serem dadas à frente de um monitor, foi muito complicado para eles”. E para este ano letivo ainda há dúvidas sobre a melhor forma de transformar as aulas práticas em aulas à distância, caso haja necessidade de voltar ao ensino à distância.

“Como é que se pode ensinar a conduzir um trator num computador?"

“Como é que se pode ensinar a conduzir um trator num computador? Como é que se pode ensinar a podar uma árvore de fruto num computador? Como é que se pode ensinar até a própria educação física? A pessoa pode ir pesquisar as regras do futebol, mas se não joga futebol, como é que sabe jogar futebol?”, questiona Conceição Santos.

“Se eu tenho de treinar pontapés de penalty, não vou utilizar o FIFA para os pontapés de penalty”, responde José Lagarto. O professor da Universidade Católica relembra que existem programas de simulação que podem ser uma mais valia nesta nova versão do ensino, no entanto reconhece que as questões relacionadas com a destreza – como é o caso exemplificado do penalty – sejam um desafio.

“Se eu tiver um quintal posso tentar simular com um portão e dar uns pontapés na bola, mas não será a mesma coisa porque eu tenho e interagir com o outro, tenho de enganar o guarda-redes”, sublinha.

Alguns professores são ainda “emigrantes digitais”

O manuseamento das tecnologias é algo cada vez intrínseco na realidade dos jovens, mas o mesmo não se passa com a geração dos professores. Alguns professores são ainda “emigrantes digitais”, como apelida José Lagarto. “Eu penso que em termos de futuro, dos currículos das escolas e da formação dos professores, a utilização das tecnologias digitais na organização do currículo e das estratégias de ensino tem de ser muito mais cuidada. E tem de se fazer perceber que estas tecnologias estão aí para ajudar as pessoas e, portanto, é um processo de aprendizagem. Ninguém nasce ensinado, obviamente”, remata o professor da Católica. Também Isabel Parreira admite que a formação dos professores para a utilização das plataformas é um ponto a melhorar neste ano, porque na correria da passagem para as aulas digitais, “não havia muito tempo para isso”.

“Não nos podemos esquecer que a nossa sociedade, particularmente os professores, quase que se auto organizou”, lembra José Lagarto. “Temos a ideia que muitos professores descobriram que afinal as tecnologias digitais podem ajudar a aprender, podem ajudar a ensinar. E essa pequena mudança pode ser importantíssima porque os professores vão passar de uma tecnologia que usaram de forma distanciada – eu não gosto de falar de ensino à distância nisto, mas é um ensino distanciado – mas podem agora, no pós-pandemia utilizar as tecnologias digitais na sala de aula também para ajudar a ensinar e, melhor, ajudar a aprender pondo as tecnologias mesmo na mão dos alunos. É fácil? Não, não é fácil. É possível? É, é francamente possível.”

A pandemia fará deste um ano letivo “atípico e especial”, como o apelidou o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues. Durante uma visita à requalificada Escola Básica de Gueifães, na Maia, o ministro reforçou que a necessidade de manter o ensino presencial que considera “absolutamente fundamental”. “Sabemos, necessariamente que as nossas escolas terão de ser sítios seguros”, referiu Brandão Rodrigues.

Para Bruno Santos, manter as escola abertas é o principal objetivo deste ano que começa agora: “A grande questão é que as escolas neste momento têm um papel fundamental na sociedade e têm o dever de conseguir dar resposta e tudo fazermos para evitar que os nossos alunos fiquem em casa e os pais não consigam ir trabalhar”, afirma Bruno Santos, lembrando que o regresso das crianças e jovens a casa poderá ter como “efeito secundário” a estagnação ou abrandamento da economia. “A minha grande expectativa é que, de facto, todo este processo de planeamento que estamos a realizar se concretize nesta grande finalidade que é não pararmos. Por favor, não podemos parar”, conclui o professor.