Coronavírus

“Chocante ver a UEFA preocupada apenas com o negócio”

Denis Balibouse

Rui Santos

Rui Santos

Comentador SIC Notícias

Rui Santos considera que a FIFA tem de assumir o seu papel nesta crise pandémica. O comentador da SIC considera chocante a insensibilidade da organização do Futebol, demasiado agarrada à ideia de que o “show must go on”.

Especial Coronavírus

A UEFA esteve em reunião com as 55 Federações nacionais e não alterou nada daquilo que já se havia percebido: dar prioridade à conclusão dos campeonatos, sendo certo que houve a preocupação de citar as Ligas mais fortes, como são as de Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França — e também concluir a edição deste ano da Liga dos Campeões, mesmo que fosse necessário cumprir os jogos à porta fechada.

Para esse objectivo, acordou-se na decisão de suspender os jogos de selecções aprazados para Junho, no sentido de se ganhar datas no calendário e admitiu-se que a presente temporada pudesse entrar nas datas que, em condições normais, já corresponderiam à época de 2020-21, sempre com o desígnio de se proteger o Europeu (que havia sido adiado para o próximo ano) e o Mundial de Clubes.

É a defesa do negócio, custe o que custar.

Não espanta, portanto, a marchete de A Bola desta quarta-feira, segundo a qual o presidente da Liga traçava a meta principal: acabar a época até 30 de Junho.

O Futebol, completamente virado para o negócio, está a manifestar uma insensibilidade total para aquilo que está a acontecer na Europa e no Mundo.

Não sei se bem ou mal comparado, a organização do futebol, global ou localmente, está a reagir como reagiram inicialmente Donald Trump, nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro, no Brasil, para quem milhares de mortes, as já registadas e as que serão contabilizadas, fazem parte do processo.

The show must go one.

Chocante.

No caso da UEFA, a preocupação maior é que os principais campeonatos cumpram os calendários.

Ignora a UEFA que nos países das ‘grandes Ligas’ estão contabilizadas cerca de 30 000 mortes e quase 400 000 casos de pessoas infectadas? Como é que se pode ignorar uma coisa destas?

E não me venham falar dos impactos económicos negativos, que não deixando de ser verdadeiros não podem deixar de ser mitigados pela própria FIFA.

A FIFA e a UEFA, no caso europeu, têm uma responsabilidade que ainda não vi ser assumida. Falta de liderança de Gianni Infantino? Adiar é a palavra de ordem. Fala-se de uma revolução no curto-prazo. A revolução já deveria ter começado, com o fecho desta temporada.

Os jogadores são cidadãos como todos nós e terão preocupações com a saúde e com a protecção das suas famílias. Jonas afirmou, com sentido de oportunidade, que “mais importante do que jogar é salvar vidas”. E, também por isso, não podem ser ‘carne para canhão’. E estão todos a esquecer-se que, depois de uma tão longa paragem, os jogadores vão ter de fazer uma pré-época, para reduzirem o perigo de lesões.

O Sindicato Mundial de Jogadores (A FIFPro) tem, nesta crise, uma força que ainda não vi ser usada.

Aqui para nós eu acho que todos têm a convicção de que não vai haver condições para se cumprirem os campeonatos (vai ser uma violência para os jogadores, para além das ‘portas fechadas’), mas está tudo a fazer de conta. Não seria melhor, na verdade, ter a coragem de fechar a temporada actual — com a designação das equipas que vão disputar as provas europeias na próxima temporada — e começar a trabalhar em programas que visem atenuar os danos económicos e financeiros resultantes desta paragem forçada e começar a pensar na próxima época, sem este stress adicional?

Os 2,3 mil milhões de euros que a FIFA diz ter para injectar no futebol pós-Covid-19 não deveriam ser desde já colocados à disposição das Federações/Ligas para lidarem com os impactos imediatos?

O Futebol está a falhar o tempo de dar um sinal ao Mundo da sua responsabilidade social. Não apenas política. Não apenas económica. Social. Virada para as pessoas, que nunca poderão deixar de ser a prioridade das prioridades.

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