Coronavírus

Médicos - e quem cuida deles?

Gonzalo Fuentes

"A Saúde mental faz parte da resposta da saúde pública à covid-19", Aiysha Malik, especialista do Departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da OMS.

Especial Coronavírus

Portugal ainda não contibilizava nenhum caso de contágio por Covid-19 quando, por várias vias, começaram a surgir os primeiros vídeos dos médicos e enfermeiros que combatiam a pandemia na região da Lombardia.

Os relatos - do cansaço, do medo, da ansiedade - punham a nú a especial vulnerabilidade da situação vivida pelos profissionais do setor da saúde.

O cenário, apesar de bastante distinto do que até aqui se viveu no Serviço Nacional de Saúde, levou um conjunto de psiquiatras a identificar a necessidade de cuidar da saúde mental de quem está na linha da frente do combate ao Coronavírus.

"Estes profissionais, porque estão expostos a uma grande pressão e a uma grande carga de trabalho, porque a situação em si é nova e cria medo e angústia, estão mais vulneráveis a vir a sofrer uma doença psiquiátrica", afirma Pedro Morgado, psiquiatra e professor da Escola de Medicina da Universidade do Minho, para quem o sucesso do combate à pandemia está comprometido, se não houver especial atenção sobre a saúde mental destes profissionais.

"Cuidar de Quem Cuida"

"Cuidar de Quem Cuida" partiu, assim, de uma iniciativa desta escola, com o apoio do Programa Nacional de Saúde Mental da Direção-Geral da Saúde, da Ordem dos Médicos, da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental e da Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria.

A ideia é proporcionar consultas de psiquiatria gratuitas, por vídeochamada, a médicos, enfermeiros, farmacêuticos, técnicos, administrativos e outros profissionais de saúde.

"Os profissionais vão a www.p5.pt/apoio, inscrevem-se, indicam a sua disponibilidade, e essas serão cruzadas com as disponibilidades dos psiquiatras que integram a plataforma", explica o responsável, Pedro Morgado.

Online desde o dia 15 de Março, a plataforma conta já com mais de 240 psiquiatras voluntários e 50 consultas, agendadas ou realizadas.

Segundo Pedro Morgado, não estando o SNS em situação de ruptura, nas últimas semanas o que tem chegado aos cuidados destes psiquiatras, revela um quadro de grande ansiedade.

"Nesta fase, tal como esperávamos, as situações que nos chegam são sobretudo de ansiedade antecipatória em relação ao que está a acontecer. Há muito o receio de poderem contaminar outras pessoas e as suas próprias famílias. Há também o receio do erro. Temos atendido sobretudo situações de ansiedade e medo."

Sintomas que, para o psiquiatra, tendem a agravar-se à medida que o cansaço aumenta.

Hamad I Mohammed

A importância dos períodos de descanso

Um estudo recente da publicação da especialidade The Lancet, sobre os médicos que acompanharam os pacientes da Covid na China, conclui que o elemento mais referido por estes profissionais como importante para a sua saúde mental, era a existência de períodos adequados de descanso.

Pedro Morgado também destaca este como sendo um dos principais factores de risco para a sanidade mental de médicos e enfermeiros.

"É muito importante que os turnos sejam adequados e permitam o total restabelecimento das condições físicas e psicológicas. É uma área a que devemos dar toda a atenção possível."

No caso dos profissionais portugueses, a queixa mais recorrente, veiculada várias vezes pelos representantes das ordens dos médicos e enfermeiros, refere-se à falta de equipamentos de proteção individual.

Para o professor da Escola de Medicina, o que aparentemente é uma questão de segurança física, acaba por revelar-se também um forte factor de ameaça ao bem estar psicológico.

"Seria muito importante que todos tivessem acesso aos equipamentos de proteção adequados. Não só pela questão do contágio, mas também pela tranquilização em relação ao facto de poderem estar a prejudicar alguém sem culpa."

Ognen Teofilovski

Apesar de constatar que questões como o descanço e os equipamentos podem ser determinantes na manutenção da sanidade mental dos profissionais da saúde, Pedro Morgado reconhece que, mesmo que estivessem garantidos, não impediriam que a situação fosse de enorme pressão.

Um dos maiores factores de risco, admite, não está no SNS mas nos próprios profissionais. Numa altura em que médicos e enfermeiros são alvo de palmas, e em que toda a gente se refere a eles como heróis, para Pedro Morgado é fundamental que façam uma gestão cuidada das expectativas sobre o seu próprio trabalho.

"Há uma fase em que temos muita energia, porque de facto, sentimos o apelo de que que fazemos vai marcar a diferença, mas depois o confronto com a realidade traz muita desilusão. Trabalhar essa desilusão é perceber que nem tudo está nas mãos destes profissionais, que há aqui uma grande dose de incerteza e muitos aspetos que estão totalmente fora do nosso controlo e, por isso, não podemos culpabilizar-nos por aquilo que não conseguimos fazer. É uma situação nova, em que os profissionais não têm todas as respostas para lidar com ela."

Que conselhos dá, nesta altura, aos profissionais da saúde?

• Que façam uma análise mais realista da situação. Que ela seja posta em perspectiva e vejam que pode haver um período que é extraordinariamente difícil, mas que é limitado no tempo. Que as coisas depois vão voltar à normalidade.

• Que façam uma análise realista do risco. Muitas vezes a ansiedade faz-nos exagerar a percepção do risco. É preciso que desenvolvam planos racionais de resposta aos perigos que estão a perturba-los e a causar-lhes mais sofrimento.

• Que façam um consumo mais moderado de informação e, sobretudo, que evitem sites e órgãos de comunicação social de carácter mais sensacionalista, que disponibilizam informações erradas de forma sistemática.

• Que reforcem a autoconfiança através da promoção de emoções positivas relacionadas como os casos de sucesso que vão acontecendo, como os casos que conseguiram ajudar, etc.

Perante que tipo de sinais devem procurar ajuda?

• Níveis de ansiedade que já não conseguem gerir com as estratégias a que normalmente recorrem

• Pensamentos repetitivos acerca da epidemia

• Uma necessidade excessiva de procurar informação e ver, ou ler, notícias

• Aperceberem-se que estão a cometer mais erros ou a repetir mais vezes as actividades para garantir que estão bem feitas

• Dificuldades de sono

• Alterações do apetite

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