Coronavírus

Os desenhos, os livros e os vídeos. Como tem sido a quarentena das crianças?

Rita Rogado

Rita Rogado

Jornalista

Nem só de arco-íris se faz a quarentena. Há livros para ler em voz alta e um mundo para descobrir em família dentro de quatro paredes.

Especial Coronavírus

Este relógio de papel foi criado pelo Vicente, que tem 7 anos. Com a ajuda da irmã Vitória, desenhou uma casa, onde está em quarentena com a família há mais de duas semanas, o sol e um arco-íris, um sinal de esperança. Numa nuvem, escreveu em inglês “Eu consigo, Tu consegues, Juntos conseguimos”. O Vicente e a família acreditam que vai ficar tudo bem.

A mãe, Elisabete Miranda, contou em entrevista à SIC Notícias que têm estado tranquilos, mas confessou que há momentos menos bons: “Por vezes temos vontade de sair, de ir ver o mar e de brincar na rua, mas queremos manter-nos responsáveis”.

Ocupam o tempo com aulas virtuais, estudos e atividades em família. Estão em casa desde o dia 9 de março, altura em que surgiu o caso de infeção de uma aluna de 17 anos na Escola Secundária de Santa Maria da Feira, onde Elisabete trabalha. Para a professora e os filhos, os desafios têm sido gerir o stress de estarem em isolamento social e as saudades da restante família.

Este cenário é semelhante ao de milhares de famílias portuguesas. O país está quase parado, as ruas estão desertas e as estradas sem trânsito. As famílias cumprem quarentena e as medidas do Estado de Emergência decretado no dia 18 deste mês. As escolas fecharam dias antes, à medida que o número de infetados pela Covid-19 aumentava em Portugal.

“Vamos dar tempo ao tempo”

Ana João também é uma das crianças que deixou de poder ir à escola. De uma aldeia de Bragança para o mundo, gravou um vídeo com o pai. Explica que o coronavírus é “muito pequenino” e que não pode ser visto a olho nu. Sabe também que os cientistas estão “à procura de um remédio”. Tem 7 anos.

Há 11 dias em quarentena, esta família criou rotinas. O pai de Ana João, de 37 anos, relatou à SIC Notícias que acordam cedo e preparam o pequeno-almoço juntos, antes de verem as notícias sobre a doença. Além dos trabalhos da escola e de ler livros, a criança brinca com o irmão de um ano e meio. É um dos poucos contactos que pode ter nestes dias de um mundo a meio gás.

Ao longo da conversa com a SIC, o pai, Bruno Fernandes, insistiu na importância das atividades em família: “Creio que este período fortaleceu, de certa forma, as relações entre pais e filhos, como também a relação com a minha companheira”.

O médico pedopsiquiatra Pedro Strecht, num documento enviado à SIC, realçou que os adultos são “o principal espelho” da estabilidade emocional das crianças. Em casa de Ana João são 4. Até agora, têm estado serenos. Até porque, como a própria diz no vídeo com o pai, vão "dar tempo ao tempo”.

“Eu acredito…”

Estes desenhos são de alunos do Colégio João Paulo II, em Braga. Foram pedidos pelo professor de Expressão Dramática João Quintas, que teve de adaptar as aulas depois do enceramento das escolas. O desafio foi lançado pelo professor: Completar a frase “Eu acredito”, com o que acreditam ser fundamental. As frases foram positivas.

Com as escolas fechadas e as crianças em casa com os pais, uma delas crê que vai ficar tudo bem. Outro aluno acredita que o superpoder da família é o amor.

“As crianças contam”

Mesmo à distância, em tempo de isolamento social, podemos aproximar-nos dos outros. Foi nisso que a Sociedade do Bem pensou quando lançou o movimento “As crianças contam”, na passada quinta-feira. É simples. As crianças leem um livro infantil em voz alta. Os pais gravam e partilham o momento no Facebook com a #ascriancascontam.

“Através da leitura de uma história, podem tornar o dia de alguém mais colorido, devolver o sorriso a alguém que se encontre sozinho ou inspirar os outros através do seu exemplo”, explicou Susana Pedro, Fundadora da Sociedade do Bem, em entrevista à SIC Notícias.

O vídeo da Beatriz a ler o “Livro da Bondade” é um dos mais de 20 publicados pela Sociedade do Bem em apenas 4 dias. Susana Pedro contou que as famílias têm aderido com entusiamos e realçou que, apesar do isolamento social, “precisamos todos uns dos outros”. Para a fundadora da associação sem fins lucrativos, as crianças “inundam as redes sociais com mensagens positivas” e, além de desenvolverem o gosto pelos livros, treinam a leitura “em voz alta”.

A Sociedade do Bem foi criada há 5 anos, em Évora, por professores, psicólogos, sociólogos e outros profissionais ligados à educação. O foco são as crianças. Na prática, a associação cria atividades nas escolas que desenvolvam a empatia, o altruísmo e a positividade.

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