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Como é que está a correr a experiência de estudar em casa? Ouvimos pais, alunos e professores

Passaram 11 dias desde que as escolas receberam ordens para encerrar e enviar os alunos para casa, onde as aulas passariam a ter lugar à distância.

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A expressão "aulas à distância", assimilada sem manuais nem livros de exercícios, em menos de 24 horas, entrava pelo vocabulário de pais, alunos e professores, à força e à velocidade com que os acontecimentos se impunham.

Enquanto todos tentavam gerir a ansiedade causada pela incógnita, em direto nos canais de televisão, Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação, esclarecia que "ninguém está de férias".

Numa primeira reação, com um simples olhar de soslaio, a maior parte dos pais terá considerado entregue o recado. Mas, à medida que os dias foram passando, muitos perceberam que a mensagem também era para eles.

O que se seguia nem sempre seriam dias de maior diálogo e convivência familiar. Além do teletrabalho, dos afazeres domésticos, da gestão das saídas para compras - por estes dias logisticamente tão complexas - foram feitos vários pedidos aos pais, através de um vídeo publicado no site do Ministério da Educação.

O que aconteceu, depois disso, espalhados pelos meios de comunicação social, blogues e grupos de pais nas redes sociais, foram catadupas de pais a queixarem-se do excesso de trabalho com que os docentes lhes entupiram as caixas de correio eletrónico.

"Aulas à distância não é isto"

Telma Fernandes, mãe do João Pedro, apressou-se a criar regras. "Nada de playstation". Mas, confessa, o mapa de atividades, negociado em clima de grande tensão, e que deixava livres umas poucas horas da tarde para o lazer, revelava-se, mesmo assim, inexequível, dada a quantidade de tarefas que estavam a ser solicitadas ao João.

"Aulas à distância não é isto", desabafa. “O que acho que os professores estavam à espera era que eles tivessem a maturidade de estar a trabalhar das 8h00 as 17h00. Não têm. E, em casa, as solicitações são outras. Com tanta tecnologia disponível não percebo porque não tentam mesmo as aulas à distância”, acrescenta.

Vários relatos de pais admitem mesmo que não tem havido aulas à distância. Muitos professores, segundo Telma Fernandes, limitam-se a enviar fichas de trabalho aos alunos, pedindo aos pais que, em caso de dúvida, os contactem por e-mail. Não raras vezes. Os exercícios não são corrigidos.

“Na matemática ele já tinha dificuldades e sem correções eu, que não domino a matéria, não consigo ajudar. Respondem a dúvidas por e-mail? em matemática... não resolve”, explica Telma.

Importa ouvir também o João, que tem 12 anos e frequenta o sétimo ano. Como estará a adaptar-se ao novo modelo de aulas?

"Mal, porque não posso tirar dúvidas. Eu não falo com os professores. Eles enviam fichas e eu depois fotografo o trabalho e mando. Não estou a conseguir fazer os trabalhos de matemática porque não percebo a matéria e a minha mãe não consegue ajudar. Gostava que os professores pudessem dar as aulas por Skype".

"Não é tão giro trabalhar em casa"

A Maria Inês, de 9 anos, frequenta o quarto ano e também está a adpatar-se à nova forma de ter aulas. Como tem apenas um professor, torna-se mais fácil gerir os trabalhos que recebe. Mesmo assim, a Inês diz que "não é tão giro trabalhar em casa", porque tem saudades dos colegas.

"Foi uma semana de assustar"

Do outro lado, Arlindo, professor e responsável por um blogue onde aborda as questões da Educação - e onde chegaram muitas críticas dos pais - explica que a novidade apanhou todos de surpresa, e que a desorganização que daí resultou, afetou todas as partes, e não só professores.

"Ainda estão todos a adaptar-se. Isto aconteceu de um dia para o outro e não houve tempo para organizar. Cada professor tentou, por si, dar continuidade às atividades letivas. Sem uma coordenação. Foi uma semana de assustar".

Uma visão partilhada por Luísa Agante, professora na universidade do Porto, e responsável por uma página dedicada a pais e educadores.

"As escolas mais stressadas quiseram logo, no dia a seguir, estar a enviar trabalhos aos pais, para não interromper as atividades letivas. Os pais entraram em pânico. Nós não estamos preparados para o ensino online de um dia para o outro e temos dificuldade em estimar o tempo que o aluno vai demorar".

Por outro lado, os docentes afirmam ainda que, tomada a decisão do encerramento das escolas, não houve diretivas, quer da tutela quer das escolas, que uniformizassem a forma como cada um ia gerir o acompanhamento dos alunos.

E, numa terceira tentativa de explicação sobre o que falhou, Luísa Agante aponta ainda para a pressão que se vive no ensino privado. "A fobia dos rankings pesou muito para que tentassem manter a normalidade e que os alunos estivessem ocupados. Teve o efeito contrário."

Se quisessemos dar aulas por videoconferência não tínhamos como

Quanto à ausência das aulas à distância, Arlindo acrescenta um outro olhar sobre o problema: "Não são só os alunos que não têm computadores. As escolas também não. Se quisessemos dar aulas por videoconferência não tínhamos como. E esse problema não é novo. Falta investimento nas escolas e nas famílias para que haja condições de igualdade".

Questionado sobre se a experiência, depuradas as falhas e os erros próprios do que foi um imprevisto, pode ou não vir a ser benéfica para o sistema de ensino, Arlindo é peremptório: "Não me parece que venha a ser possível fazer tudo isto com a qualidade com que se faz numa sala de aula. Nada substitui o acompanhamento presencial."

Governo tranquiliza pais

O sistema de ensino pode até ser provisório, mas ninguém arrisca dizer ao certo, por quanto tempo.

Um cenário parece porém provável, a julgar pelas palavras do primeiro-ministro António Costa, esta terça-feira, no Parlamento: o encerramento das escolas poderá “ir muito além” das férias da Páscoa.

Até lá, em entrevista ao Expresso, o secretário de Estado da Educação, tenta tranquilizar os pais.

"(O excesso de trabalho, de que se queixam) aconteceu nalguns casos, não por maldade, mas por um excesso de entusiasmo em continuar a trabalhar, e talvez por alguma falta de articulação entre diretores de turma e professores. Mas essa avalancha de tarefas pedagógicas que inundou alguns e-mails vai seguramente ser corrigida esta semana. Este é um momento novo e um processo de aprendizagem para todos.", disse João Sobrinho Teixeira.

À procura da solidariedade viral

Ao longo dos anos de contacto com a comunidade educativa, através da página que criou no Facebook, Luísa Agante ficou a conhecer, sob diferentes perspetivas, as dificuldades com que se confrontam, diariamente, pais, professores e estudantes.

Quando, no dia 13 de Março, percebeu a singularidade dos dias que se avizinhavam, a professora acabou por deparar-se com aquele que será, provavelmente, o maior obstáculo ao ensino à distância. É que nem as escolas, nem as famílias, estão tecnologicamente preparadas.

"O problema é transversal. Não são só as classes mais desfavorecidas a ter dificuldades. Mesmo a média e média alta está a senti-las. Não estavam preparados para ter um computador por pessoa."

Os relatos que lhe chegaram através das redes sociais, viriam confirmar isso mesmo. "Desde a pessoa do bairro que não tem nenhum computador, à criança de 6 anos que está com a avó que não sabe ler nem escrever, ou à família de quatro pessoas que tem de repente todos em casa - dois pais em teletrabalho e duas crianças em idade escolar - muitos deparam-se com esse problema", exemplifica.

Partindo desta premissa, Luísa começou por pôr em contacto quem não tinha, e quem podia ceder, e acabou por criar o grupo "computadores e afins para o ensino à distância em Portugal".

Computadores e afins para ensino à distância em Portugal

Computadores e afins para ensino à distância em Portugal

Em apenas quatro dias, o grupo conta com mais de 500 participantes. Foram sinalizadas 11 famílias a precisar de computador e já foram já atribuidos 10.

"As reações têm sido óptimas. As famílias ficam muito contentes. A senhora de Penacova, que é responsável pelo neto de 6 anos, ficou felissíssima. As nossas mensagens privadas são só corações, corações, corações", conta a professora.

Os professores também são pais

Desde dia 20, Luísa concilia o trabalho com a tentativa de responder a todos. E a distribuição dos computadores, com o cumprimento do que, por estes dias, passou a ser uma obrigação de cidadania - ficar em casa. "Tento gerir as saídas. Até porque se não passava o dia a mudar de roupa e a desinfetar tudo, a cada entrada e saída de casa", diz.

A tarefa é distribuída pelas várias pessoas e associações que quiseram associar-se à causa.

Muitos são professores. E é deles que parte muitas vezes a sinalização das carências e dos alunos a que não estão a conseguir chegar, numa tentativa de não deixar ninguém para trás. Luísa Agante faz questão de enaltecer-lhes a forma como têm gerido estes últimos dias. "Uma coisa boa que pode sair daqui é a valorização dos professores, finalmente. Os professores também são pais. Estamos todos na mesma situação", lembra.

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