Brexit

Relações entre Londres e Paris estão "no ponto mais baixo" dos últimos 40 anos

NEIL HALL/POOL

Desde o Brexit, a tensão entre os dois países tem vindo a aumentar.

As tensões entre Paris e Londres têm vindo a acumular-se desde o Brexit, entre disputas ligadas à pesca, energia e imigração, levando as relações bilaterais aos piores níveis dos últimos 40 anos, conclui um analista.

"Com o Brexit, a relação do Reino Unido com os maiores países da União Europeia está no ponto mais baixo dos último 40 anos, são as maiores tensões desde o período Thatcher. Claro que com a França isto tem outra amplitude", afirmou Aurélien Antoine, professor da Faculdade de Direito da Universidade Jean-Monnet em Saint-Etienne, em declarações à agência Lusa.

Aurélien Antoine dirige o "Observatório do Brexit", um site em que vários académicos publicam textos de acompanhamento do processo de saída do Reino Unido da União Europeia, e constata o aumento de tensões com a França, tendo tudo começado com uma disputa ligada à pesca.

"Sempre houve relações relativamente tensas com os pescadores franceses, da região da Normandia, no acesso às águas das ilhas britânicas de Jersey e Guernesey. É um problema antigo que é anterior ao Brexit. Com o Brexit, tudo piorou, já que o Reino Unido tem novamente soberania e impõe as condições de acesso às suas águas", explicou.

Descontente com o número de licenças dadas aos seus navios, a França pede nos últimos meses que o Reino Unido cumpra os acordos relativos à pesca assinados aquando da sua saída, com a ministra das Pescas, Annick Girardin, a acusar o Governo de Boris Johnson de "fazer refém" os pescadores franceses por "razões políticas".

"Claro que há um lado prático e administrativo, para o qual as autoridades britânicas não estavam bem preparadas, mas a pesca é algo muito simbólico e emblemático. Não é a atividade económica mais rentável, mas por razões eleitorais a pesca é importante. No Reino Unido, muitos pescadores votaram a favor do Brexit para terem novamente o controlo das suas águas", indicou Aurélien Antoine.

Do lado francês, este é também um setor simbólico e os atrasos britânicos levaram os gauleses a subirem o tom das ameaças, com as autoridades francesas a indicarem um possível corte da energia a Jersey e Guernesey - que é fornecida pela França."

"É uma ameaça que até já tinha sido feita e acho que ninguém espera que a França corte o acesso de Jersey ou Guernesey à energia, até porque o Reino Unido paga para isso. É apenas uma ameaça no meio de uma grande tensão diplomática, esperemos que não chegue a esse ponto", referiu o académico.

Mais problemática é a tensão relativamente aos migrantes em Calais, que a França gere em conjunto com os britânicos, já que o objetivo de muitos destes migrantes, vindos de África e do Médio Oriente, é conseguirem chegar à costa do Reino Unido.

Os dois países assinaram os acordos de Touquet, em que o Reino Unido acordou pagar até ao final de julho 62,7 milhões para que, no período entre 2021 e 2022, a França consiga gerir os fluxos migratórios, mas os britânicos têm vindo a atrasar o pagamento, levando o ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, a pedir um acordo europeu sobre os pedidos de asilo.

"A imigração é um tema muito importante, especialmente quando falamos de governos que adiam medidas concretas e querem controlar a imigração com uma abordagem económica", referiu Aurélien Antoine.

O facto de Michael Barnier, antigo negociador principal do Brexit, ser agora candidato presidencial às eleições francesas traz a questão das relações com o Reino Unido para o debate político.

"Ele retira alguma legitimidade de ter encabeçado estas negociações, mas é muito crítico em relação ao Brexit e já o ouvimos falar de uma maneira bastante rigorosa sobre, por exemplo, a questão da imigração na União Europeia, algo que me parece um pouco caricato quando se negociou acordos sobre isto com o Reino Unido", concluiu Aurélien Antoine.

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