Afeganistão

Afegãs reagem à imposição do hijab negro com imagens de coloridos vestidos tradicionais

O destino das mulheres no Afeganistão tem sido fonte de preocupação desde que os talibãs assumiram o controlo do país.

Mulheres afegãs em todo o mundo estão a publicar fotografias dos seus tradicionais e coloridos vestidos em protesto contra a exigência dos talibãs de que mulheres e raparigas usem hijab nas escolas e universidades.

Quando os talibãs estiveram pela primeira vez no poder, no final dos anos 1990, as mulheres e as raparigas não tiveram acesso à educação e foram excluídas da vida pública.

Os fundamentalistas islâmicos têm tido agora a preocupação de demonstrar que mudaram de atitude, sobretudo em relação às mulheres e determinaram que podem continuar a estudar em universidades, inclusive em níveis de pós-graduação, mas as salas de aula são segregadas por género e a veste islâmica é obrigatória para alunas, professoras e funcionárias.

Estudantes universitárias em Cabul, Afeganistão.

Estudantes universitárias em Cabul, Afeganistão.

STRINGER

Apesar desta aparente abertura, continua a haver repressão contra a mulheres. As manifestações em que as mulheres reivindicam direitos iguais aos dos homens têm terminado com violência , as mulheres não podem voltar ao trabalho e estão proibidas de praticar desportos.

As afegãs que estão espalhadas pelo mundo estão a fazer um protesto nas redes sociais mostrando o contraste entre os seus vestidos tradicionais coloridos e as vestes islâmicas negras que os talibãs obrigam as mulheres a usar.

A ideia terá partido, segundo a CNN, de Bahar Jalali, uma antiga professora da Universidade Americana do Afeganistão de acordo com a sua página de LinkedIn. No Twitter partilhou uma fotografia de uma mulher num vestido preto completo e véu.

"Nenhuma mulher jamais se vestiu assim na história do Afeganistão. Isto é totalmente estranho e estranho à cultura afegã. Publiquei a minha foto com o vestido tradicional afegão para informar, educar e dissipar a desinformação que está a ser propagada pelos Talibãs."

Várias mulheres afegãs seguiram o exemplo nas redes sociais.

Waslat Hasrat-Nazimi, chefe do serviço afegão no DW News, publicou uma foto em trajes e toucados tradicionais afegãos com o comentário:

"Esta é a cultura afegã e é assim que as mulheres afegãs se vestem".

Sana Safi, jornalista da BBC em Londres, publicou uma foto sua com um vestido tradicional colorido, com o comentário:

"Se eu estivesse no Afeganistão, teria o lenço na cabeça. Isto é 'conservador' e 'tradicional'".

Sodaba Haidare, outra jornalista da BBC, escreveu:

"Este é o nosso vestido tradicional. Adoramos muitas cores. Até o nosso arroz é colorido, assim como a nossa bandeira."

Peymana Assad, política no Reino Unido originária do Afeganistão, disse na sua publicação:

"Esta é a cultura afegã. O meu vestido tradicional (...) O nosso traje cultural não é o traje de dementor* que os talibãs obrigam as mulheres a usar".

*dementor - referência a personagens dos livros Harry Potter que têm vestes longas e negras

E a corrente de protesto das afegãs pelo mundo continua com inúmeras fotos de mulheres com os seus trajes tradicionais afegãos.

O destino das mulheres no Afeganistão tem sido fonte de preocupação desde que os talibãs assumiram o controlo do país após a retirada caótica das tropas norte-americanas e internacionais em agosto.

Os talibãs governaram o país de 1996 a 2001, foram destituídos do poder após a invasão liderada pelos EUA. Historicamente tratam as mulheres como cidadãs de segunda classe, sujeitando-as à violência, casamentos forçados, são quase invisíveis no país.

Depois da conquista da capital Cabul a 15 de agosto, a liderança talibã alegou que não iria impor as mesmas medidas. Mas a ausência de qualquer representante do sexo feminino no governo provisório recém-formado e o quase desaparecimento total de mulheres nas ruas do país gera preocupações sobre o que acontecerá a seguir.

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