Economia

Groundforce: "A história de um capitalismo português indescritível"

Opinião

José Gomes Ferreira analisa o percurso de Alfredo Casimiro na empresa de handling e o impacto da greve na economia do país.

O fim de semana ficou marcado pela greve da Groundforce, que levou ao cancelamento de mais de 650 voos – a grande maioria no aeroporto de Lisboa. José Gomes Ferreira lembra como a empresa de handling chegou a esta situação, numa história que considera ser de “capitalismo português indescritível".

O jornalista regressa atrás no tempo – à era da troika – para explicar como Alfredo Casimiro, “que era um protegido de Ricardo Salgado”, adquiriu a maior parte das ações da empresa Groundforce. A venda ocorreu durante a época de crise económica, acabando com a gestão politizada da companhia.

“Alfredo Casimiro apareceu sem capital para comprar a empresa, disse que dava três ou 3,5 milhões. Quando entrou na empresa, firmou logo um contrato de gestão em que a Groundforce tinha de pagar à sua empresa um pagamento por gestão – que era bastante elevado. Ele tinha de pagar três milhões, não pagou até 2018”, explica José Gomes Ferreira.

Nessa altura, “ele inventou que a TAP tinha ficado a dever dinheiro do saneamento, no valor de 3,5 milhões – como quem diz “eu não tenho de vos pagar nada””. Para o jornalista, “isto é uma historia de capitalismo português indescritível”.

Com a crise provocada pela pandemia de covid-19, tanto a TAP como a própria Groundforce ficaram sem dinheiro porque o movimento caiu abruptamente.

“Este senhor [Alfredo Casimiro] veio inventar que a TAP deve dinheiro à Groundforce. Isso não é verdade, isto está mais do que demonstrado. Até há um voluntarismo político do próprio ministro das Infraestruturas, que disse à TAP que adiante dinheiro à Groundforce – e assim foi. E esse voluntarismo levou a que a Groundforce já deva 15 ou 16 milhões só à TAP. Deve mais de 10 milhões à própria ANA Aeroportos”, explica.

Sobre o impacto da greve na economia portuguesa, José Gomes Ferreira reconhece razão aos trabalhadores de reivindicarem o pagamento de salários e subsídios de férias em atraso, mas defende que há outras formas de protestar. Sublinha ainda que a nova greve - marcada para os dias 31 de julho, 1 e 2 de agosto - torna a situação ainda mais complicada para ambas as empresas.

“Numa altura em que o país estava a tentar levantar a cabeça, em que o transporto aéreo, que é vital para trazer turistas, estava a tentar reanimar e aparece, de repente, uma greve destas e outra já marcada, com um desarranjo tão grande na vida das pessoas. Sinceramente, acho que os sindicatos têm quase toda a razão, eu acho que esta forma de luta ultrapassa as razões que eles têm”, afirma.

Limitação dos lucros sobre os combustíveis

O Governo anunciou a intenção de limitar a margem de lucro sobre a venda de combustíveis. O objetivo é aliviar o gasto dos portugueses quando existe uma redução do preço da matéria prima. As gasolineiras queixam-se que as margens de lucro não são o problema, mas sim os altos impostos.

José Gomes Ferreira concorda com a medida anunciada pelo Governo. Considera que a empresas estão a “enganar-nos a todos e a esconder o verdadeiro problema”.

“Eles querem discutir que o crude subiu, querem discutir que os impostos são muito elevados e querem esconder a margem que é cada vez maior. Eles estão-nos a ir ao bolso. E pela primeira vez nesta conjuntura o ministro do Ambiente e o secretário de Estado Galamba têm razão, deviam tabelar já o que é a margem de tabulação dos operadores porque eles estão-nos a ir ao bolso”, observa o jornalista.