Desporto

Marega alvo de racismo: "Foi uma grande humilhação para mim"

O caso, o impacto, as reações e as (possíveis) consequências dos insultos racistas ao jogador do FC Porto.

Tudo aconteceu ao minuto 71 da partida entre Vitória de Guimarães e FC Porto. Moussa Marega decidiu abandonar o relvado depois de ouvir cânticos e gritos racistas de adeptos da formação vimaranense, numa altura em que os "dragões" venciam por 2-1, resultado com que terminaria o encontro.

A primeira reação do avançado maliano surgiu na rede social Instagram. Marega explicou o que sentiu e qualificou os adeptos que o insultaram de "idiotas", contestando também o comportamento da equipa de arbitragem, liderada por Luís Godinho, por não o ter defendido e ainda lhe ter mostrado um cartão amarelo.

Instagram

Esta segunda-feira, Marega voltou a reagir. Em entrevista a uma rádio francesa, "mais calmo", o avançado do FC Porto disse estar chocado e afirmou que não esperava que os adeptos do Vitória de Guimarães, um clube que representou há três épocas, tivessem a postura que tiveram.

O internacional maliano revelou ainda que os insultos racistas começaram logo no aquecimento.

AS REAÇÕES POLÍTICAS AO CASO

Do Presidente da República ao primeiro-ministro, passando pelos principais partidos, da esquerda à direita, todos condenaram os insultos racistas dirigidos a Moussa Marega.

Marcelo Rebelo de Sousa apelou à ética, ao sentido cívico e ao bom senso. António Costa manifestou repúdio total e disse esperar que as autoridades ajam como lhes compete.

UNIVERSO DESPORTIVO CONDENA O EPISÓDIO

No panorama desportivo, algumas das principais figuras do futebol também se uniram para repudiar os acontecimentos no Estádio D. Afonso Henriques.

Uma condenação partilhada por todos, independente de qualquer rivalidade clubística.

OS ECOS NA IMPRENSA INTERNACIONAL

O caso teve ecos na imprensa internacional e há uma palavra comum para designar o que aconteceu: "Vergonha".

Os jornais desportivos, em especial os europeus, não poupam críticas ao sucedido.

PSP TENTA IDENTIFICAR SUSPEITOS

A PSP está a tentar identificar os adeptos suspeitos de dirigirem palavras e gestos racistas e xenófobos a Marega.

"Não obstante não ter sido possível proceder no recinto a qualquer identificação ou detenção, em face da moldura humana e concentração de pessoas, a PSP, dentro do quadro legal indicado, está a fazer as diligências necessárias para identificar os suspeitos que cometeram as infrações criminais e contraordenacionais, levando-os perante as entidades judiciais e administrativas competentes", disse a Polícia de Segurança Pública em comunicado.

A PSP apelou ainda a todos os apoiantes dos clubes que mantenham "uma conduta de respeito para com os adversários" e reiterou o compromisso em cumprir a sua missão nas diversas manifestações desportivas.

HUGO DELGADO

As imagens de videovigilância vão desempenhar um papel fundamental para que a PSP consiga identificar os adeptos que insultaram o jogador do FC Porto.

As autoridades garantem que têm os meios necessários para localizar os suspeitos.

QUE CONSEQUÊNCIAS?

A Procuradoria-Geral da República instaurou um inquérito para analisar o caso. A investigação está entregue ao Departamento de Investigação e Acão Penal de Guimarães.

Os estatutos da UEFA estabelecem como um dos grandes objetivos a promoção do futebol num espirito livre, sem qualquer tipo de discriminação. Por isso mesmo, a UEFA tem previsto um procedimento a adotar pelo árbitro em caso de comportamentos de natureza racista.

A recomendação passa por interromper o jogo e pode mesmo levar a que o árbitro dê o jogo por terminado caso as atitudes se mantenham.

No caso do espisódio durante o Vitória de Guimarães - FC Porto, o árbitro Luís Godinho optou por não interromper o jogo tendo em conta a saída de campo de Marega.

O Vitória de Guimarães arrisca agora um processo disciplinar. O regulamento disciplinar da Liga prevê um castigo que pode ir até aos três jogos à porta fechada, acrescido de uma multa para os clubes que têm a responsabilidade de assegurar que não existem comportamentos racistas nos estádios.

HUGO DELGADO

Para além do regulamento da Liga, a lei da segurança e combate ao racismo nos espetáculos desportivos, alterada há poucos meses, prevê mesmo consequências desportivas para os clubes.

O caso que envolve Marega tem assim duplo enquadramento legal - também no Código Penal pode constituir um crime de injúria e um crime de discriminação racial, punivel com uma pena até cinco anos.

Os insultos racistas dirigidos ao jogador do FC Porto atentam também contra o principio da igualdade, um dos pilares da Constituição Portuguesa

Vitória garante que vai colaborar com as autoridades

O Vitória de Guimarães voltou a reagir ao caso esta segunda-feira à noite. Em comunicado, a equipa minhota garante que vai colaborar com Polícia de Segurança Pública e Procuradoria-Geral da República para identificar os responsáveis dos atos racistas contra Marega.

"Em face das posições publicamente assumidas pela Polícia de Segurança Pública e pela Procuradoria-Geral da República, o Vitória reitera a sua total disponibilidade para colaborar ativamente na identificação dos verdadeiros responsáveis pela ocorrência de racismo ou discriminação no Estádio D. Afonso Henriques, para o que apela ainda à cooperação dos seus adeptos e associados", lê-se no comunicado publicado no sítio oficial.

HUGO DELGADO

Uma lista (que já vai longa) de episódios de racismo no futebol

Os cânticos racistas proferidos contra Marega não são caso único no futebol. Em jogos na Bolívia, Itália, Espanha, Brasil e Bulgária, foram vários os futebolistas vítimas de racismo por adeptos da equipa adversária.

Uma lista extensa, que continua a adensar-se.

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