Cultura

Hollywood em tom político

Katharine Houghton e Sidney Poitier — memórias do ano de 1967 em Hollywood

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A história do cinema americano está longe de ser indiferente às convulsões sociais e políticas dos EUA. A confirmar isso mesmo, nestes dias agitados várias entidades de Hollywood vieram publicamente denunciar o racismo.

Como todos sabemos, a morte de George Floyd, na cidade de Minneapolis, está a ter repercussões dramáticas nos EUA. Desde logo, porque as circunstâncias dessa morte recolocaram na actualidade a questão da violência perpetrada por polícias brancos contra cidadãos negros; depois, porque a gestão da situação pela administração de Donald Trump está longe de gerar consensos.

Mesmo não esquecendo a complexidade social, política e simbólica de tudo o que está em jogo — desde os ecos da história dos afro-americanos até às possíveis repercussões nas próximas eleições presidenciais americanas (marcadas para 3 de novembro) —, vale a pena referir que a comunidade cinematográfica dos EUA tem mantido uma atenção muito particular às convulsões que se estão a viver.

No sábado (30 maio), a revista Variety, muitas vezes referida como a “bíblia” da indústria cinematográfica americana, destacava as tomadas de posição de algumas entidades (“players”) de Hollywood face ao que está a acontecer. Assim, para lá das declarações individuais, várias plataformas de “streaming” — incluindo Netflix, Amazon e HBO — vieram publicamente denunciar o racismo, manifestando o seu apoio à comunidade afro-americana e, em especial, ao movimento Black Lives Matter. Entretanto, Jim Gianopulos, CEO dos estúdios Paramount, escreveu mesmo uma carta aos respectivos trabalhadores, lembrando os valores que fundaram os EUA e citando algumas palavras emblemáticas de Martin Luther King Jr.: “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça para a justiça em todos os os lugares”.

São factos que nos ajudam a recordar como é simplista, por vezes demagógica, a descrição de Hollywood como uma comunidade desligada das convulsões políticas dos EUA. Importa, aliás, contrariar a noção segundo a qual as questões dos direitos civis e do racismo são uma recente aquisição temática de algumas produções de Hollywood. Para nos ficarmos por um exemplo (um só) capaz de contrariar tal noção, lembremos o filme de Stanley Kramer, Adivinha Quem Vem Jantar, centrado na história de uma jovem branca (Katharine Houghton) que apresenta aos pais o seu noivo negro (Sidney Poitier).

Não se trata, entenda-se, de sugerir que tal filme simboliza “toda” a história dos afro-americanos. Trata-se apenas de não esquecer que “Adivinha Quem Vem Jantar” desempenhou um significativo papel social de consciencialização num tempo muito anterior aos problemas que, actualmente, afectam a sociedade dos EUA. Quando é que isso aconteceu? Antes de George Floyd, por certo. Mas não no ano passado. Nem sequer neste nosso século XXI — foi há mais de meio século, mais precisamente no ano de 1967.