Cultura

Letra de médico

Espaço Miguel Torga

São médicos, os escritores que aqui se sugerem, 17 nomes que aliaram a arte da sua formação ao engenho da palavra escrita.

Tempos conturbados, estes, que vivemos, convites súbitos e irrecusáveis aos atritos da reclusão voluntária; tempos conturbados, estes, que vivemos, forçados que somos à memória de um passado recente que, de tão recente que é, não chega ao pódio da recordação; tempos conturbados, estes, que vivemos, dispensáveis indutores da introspeção que assim perde a inocência da espontaneidade, que assim obriga à reflexão condicionada pelo que vem de fora e assim adultera o processo que devia acontecer por dentro; tempos conturbados, estes, que vivemos, onde, em maior ou menor grau, muitos foram transformados em voluntários ociosos. Ócios de um ofício comum que se chama condição humana.

Importará, pois, amenizar o tempo, adocicar-lhe as agruras, fintar-lhe as rotinas, quebrar-lhe as amarras da repetição. Enquanto a ciência e a medicina vasculham o surpreendente abismo da sabedoria; enquanto a sociedade reaprende os seus hábitos; enquanto a luta nos leitos de um rio comum enfrenta as margens do possível, talvez seja oportuno lembrar alguns antídotos do desespero, panaceias passíveis de amenizar as penas do quotidiano. Desde logo a leitura, esse exercício intemporal capaz de suspender a passagem das horas e travar a insidiosa erosão do tempo.

São médicos, os escritores que aqui se sugerem, 17 nomes que aliaram a arte da sua formação ao engenho da palavra escrita. Quis o destino, essa volátil explicação da vida que, para assinalar os 80 anos da sua criação, a Ordem dos Médicos se juntasse à editora A Bela e o Monstro para editar obras mais ou menos conhecidas de autores mais ou menos conhecidos que aliaram a prática clínica à praxis literária. Deste modo, o público tem agora acesso a trabalhos de 17 médicos escritores, sobressaindo os títulos assinados por Jaime Cortesão (“Memórias da Grande Guerra”), Miguel Torga (“Vindima”), Fernando Namora (“A Noite e a Madrugada”), ou o injustamente esquecido Bernardo Santareno e o seu extraordinário “Nos Mares do Fim do Mundo”. Para além destes, completam a coleção Médicos Escritores obras de Júlio Dantas, Júlio Diniz, Egas Moniz, Leite de Vasconcelos, Fialho de Almeida, Brito Camacho, Miguel Bombarda, Graça Pina de Morais, Abel Salazar e João de Araújo Correia. A estes somaram-se romances de Júlio de Matos (“Paranóia”), Manuel Laranjeira (“Comigo”) e... Ricardo Jorge (“Um Canhenho de um Vagabundo”), nome que se tornou ainda mais conhecido em virtude do instituto com o seu nome, tão solicitado para análises laboratoriais à enfermidade que nos assusta, estar há muito na linha da frente neste tipo de diagnóstico.

Permito-me destacar ainda dois factos: o primeiro, sublinhar que as edições são facsimiladas, aportando por isso as capas “originais”, o que aumenta ainda mais o encanto das palavras que ocultam e que, uma vez abertas, são garante de qualidade. Uma segunda nota é, simultaneamente, uma outra sugestão: “Deuses e Demónios da Medicina”, obra em dois volumes assinada por Fernando Namora, e que apresenta um conjunto de pequenas biografias dos maiores nomes da história da Medicina, bem como dos feitos alcançados neste ramo do conhecimento.

Tendo sempre presente o papel absolutamente determinante da medicina na história da Humanidade, e num tempo em que esta é, uma vez mais, posta à prova, espero sinceramente que as sugestões aqui deixadas possam de alguma forma unir-nos ainda mais em torno de um bem comum que, desde a Antiguidade, pretende conciliar a mente sã ao corpo são.