Cultura

Todd Solondz ou a América sem Hollywood

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A obra do americano Todd Solondz é tema de retrospectiva no festival CURTAS, de Vila do Conde: os seus filmes constituem um caso exemplar de uma produção que não abdica do seu estatuto independente.

No seu filme mais recente, “Uma Vida de Cão” (2016), Todd Solondz elege como herói um frágil ser de quatro patas, um simpático “salsicha” (teckel de pêlo curto). Mudando várias vezes de dono, através dele descobrimos as variações materiais e afectivas dos mais tradicionais lares norte-americanos. O filme evolui numa desconcertante serenidade [foto] que contrasta com o misto de inércia criativa e desencanto moral que contamina todos os seus cenários.

Terá sido essa visão, característica de algum cinema independente dos EUA, que levou o festival CURTAS, de Vila do Conde, a escolher Solondz como um dos cineastas em retrospectiva na sua 27ª edição (a decorrer até 14 de Julho). Por um lado, o certame há muito diversificou o âmbito de programação, integrando as longas-metragens sem perder o contacto com o universo multifacetado das curtas; por outro lado, com filmes mais conseguidos ou menos conseguidos, Solondz representa, de facto, a energia de uma produção americana que existe, e persiste, como se não existisse Hollywood.

Curioso paradoxo. Em vários títulos da filmografia de Solondz encontramos actores com participações importantes em produções dos grandes estúdios da Califórnia — lembremos, por exemplo, Philip Seymour Hoffman (“Felicidade”, 1998), Allison Janey (“A Vida em Tempo de Guerra”, 2009) ou Danny DeVito (precisamente em “Uma Vida de Cão”). Ao mesmo tempo, os seus filmes

reflectem esse espírito criativo que, melhor ou pior, resiste a aplicar os modelos tradicionais de Hollywood.

Nesta perspectiva, podemos definir o trabalho de Solondz através de um confronto bizarro, também ele paradoxal. Assim, não deixa de ser verdade que quase todos os ambientes dos seus filmes (lembremos ainda o caso exemplar de “Conta-me Histórias”, lançado em 2001) são prolongamentos mais ou menos ambíguos, quase sempre irónicos, do mais nobre registo melodramático do período clássico de Hollywood — até porque, convém não esquecer, quase todas as histórias de Solondz têm também a família como espaço dramático de eleição. O certo é que tudo acontece como se o “american way of life” fosse, agora, pouco mais do que uma ilusão empenhada em mascarar as formas de infelicidade, ou mesmo de crueldade, em que existem as personagens.

Não creio que as singularidades deste cinema justifiquem que menosprezemos a excelência que continua a marcar algumas produções com o selo de Hollywood (para nos ficarmos por uma só das estreias deste ano nos ecrãs portugueses, lembremos o exemplo admirável de “Correio de Droga”, de Clint Eastwood). Seja como for, há em Solondz um tocante misto de angústia e humor que, directa ou indirectamente, desafia as imagens convencionais da América. Ironicamente, ou talvez não, ele está a trabalhar num filme intitulado “Love Child” cujos principais intérpretes serão a espanhola Penélope Cruz e o venezuelano Edgar Ramírez.