Cultura

Festival de Veneza “contra” Cannes

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

No panorama europeu e internacional, o Festival de Veneza continua a ser o concorrente mais directo de Cannes. Para a edição deste ano, o certame italiano convidou uma cineasta argentina, Lucrecia Martel, para presidir ao seu júri oficial.

O Festival de Veneza anunciou há dias que o seu júri oficial para a edição de 2019 (28 Agosto/7 Setembro) será presidido por Lucrecia Martel. Cineasta argentina com uma imagem internacional de grande prestígio, tem sido presença regular no mercado português, nomeadamente através de títulos como “A Rapariga Santa” (2004), “A Mulher sem Cabeça” (2008) e “Zama” (2017).

A evolução dos principais festivais de cinema na Europa, que figuram também entre os maiores do mundo, tem reforçado uma curiosa polarização entre Cannes e Veneza. De acordo com uma visão mais tradicional (sempre discutível, entenda-se), Cannes seria a celebração “global” dos filmes, alicerçada numa coexistência festiva entre grandes produções mais ou menos ligadas aos grandes estúdios americanos e produtos das pequenas cinematografias. Veneza manter-se-ia como um reduto da dimensão “artística” do cinema, não cedendo às seduções próprias da grande indústria.

Em boa verdade, tais contas têm-se baralhado de forma tão insólita quanto curiosa. Em anos recentes, Veneza tem mesmo funcionado como plataforma de lançamento de diversos títulos ligados às estruturas de Hollywood ou, em qualquer caso, que viriam a distinguir-se por destacada presença nos Oscars. Lembremos apenas os vencedores do Leão de Ouro nas duas últimas edições: “A Forma da Água” (2017) e “Roma” (2018)

seriam consagrados com várias estatuetas douradas (incluindo, respectivamente, melhor filme e melhor filme estrangeiro).

Escusado será dizer que Lucrecia Martel é exterior a este universo, uma vez que as suas raízes de produção estão em espaços muito diferentes (o recente e brilhante “Zama”, por exemplo, era uma coprodução internacional, envolvendo entidades de diversos países, incluindo Espanha, Suíça e Portugal). Essa sua singularidade poderá inflectir (ou não...) as decisões de um júri em que, para todos os efeitos, terá a companhia de outras importantes personalidades (ainda não reveladas).

Entenda-se: não se trata de “avaliar” a constituição do próprio júri, muito menos de “antecipar” o que quer que seja em relação ao seu trabalho. Trata-se, isso sim, de reconhecer que Veneza continua a manter uma interessante estratégia de diversificação que só pode ser positiva para a própria “rivalidade” entre os grandes festivais — e, em particular, para desafiar o poder simbólico de Cannes.